18/07/2026
Documentário

Marinheiro das Montanhas

Explorando suas memórias e a história de seus pais, a bióloga cearense Iracema e o engenheiro argelino Majid, o cineasta Karim Aïnouz viaja à Argélia, onde descobre o país, ao mesmo tempo que reconstitui sua própria trajetória pessoal - construída em torno da mãe, que o criou no Ceará e sempre sonhou um dia conhecer a terra natal de seu antigo amor.

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Diretor com uma obra premiada e múltipla, Karim Aïnouz entra numa jornada extremamente pessoal neste documentário em que examina suas raízes na Argélia. O tempo gasto, tanto na decisão de fazer o filme, que remonta a 2014, quanto na filmagem propriamente dita, em 2019, entra no tecido do filme de modo orgânico. Isto permite não só a organização das emoções discretas desta viagem às próprias origens como a contextualização das figuras centrais do pai, o argelino Majid, e da mãe, a cearense Iracema.
 
Na verdade, a primeira constatação da não obviedade deste encontro do cineasta consigo mesmo é que o filme trata, mais do que uma busca do pai, de uma viagem fantasmática com a mãe - que por muito tempo sonhou mas nunca realizou este percurso até a terra do antigo amor.
 
Este formato de carta cinematográfica a Iracema dá ao filme uma moldura emocionada, traduzida no texto em off dito por Karim, cobrindo as imagens que a câmera capta de maneira curiosa, sensível, transformando também os espectadores em passageiros da mesma viagem. Cada um terá, afinal, suas próprias coordenadas para sintonia com suas raízes familiares, sendo filhos de imigrantes ou não. E é assim que o filme consolida de forma mais eficiente sua proposta, proporcionando acolhida às emoções do público ao mesmo tempo que conta uma história pessoal e única.
A câmera inquieta absorve a Argélia desde antes da chegada, numa viagem que Karim optou que fosse de navio, a partir de Marselha, permitindo que o Mediterrâneo que abraça o país entre no quadro antes mesmo desta Argel de luz própria, chamada de branca e também de vermelha. 
 
Nas ruas, coleta-se rostos em que é possível capturar a expressão altiva de um povo que lutou ferozmente pela independência dos franceses, em batalhas que se estenderam por anos e ceifaram um número estimado em 1 milhão de vítimas - homenageadas no imenso Monumento aos Mártires que é visível de longe de qualquer parte da cidade, tal como as pirâmides no Cairo.
 
Por outro lado, a juventude ali vive o ocaso de um país que perdeu sua utopia original ao mergulhar num autoritarismo fundamentalista. Por isso, estes jovens rebelam-se silenciosamente contra o desemprego e o ocaso, sonhando com um futuro em outras paragens. 
 
O trajeto fatalmente será estendido a Tagmut Azuz, a aldeia da Cabília, na cordilheira do Atlas, onde nasceu Majid Aïnouz e Karim descobre que seu sobrenome é um dos mais comuns - como se observa nas lápides do cemitério local. Um momento digno de Jorge Luis Borges é quando Karim encontra um xará, outro Karim Aïnouz, que nasceu no mesmo ano que ele, faz questão de exibir seu documento de identidade e apresenta seus dois filhos. Esta camaradagem de reconhecimento se estabelece também nas ruas da aldeia, onde o cineasta procura e encontra parentes, em momentos não isentos de uma discreta desconfiança, alguns mal-entendidos e um bocado de afeto e humor.
 
O filme encontra uma amplitude maior pela decisão do cineasta de inserir imagens que pontuam o contexto em que seus pais se conheceram, em 1962, quando ambos foram estudar nos EUA. Engenheiro, Majid faria aperfeiçoamento para retornar para a reconstrução de um país recém-saído do colonialismo. Bióloga, Iracema faria mestrado sobre as algas que estudava, voltando a um país que sonhava um projeto desenvolvimentista e popular que, pouco depois, seria interrompido por uma ditadura militar.
 
Pelo filme, é possível compreender também porque Karim é um diretor de alma tão feminina, como se traduz em trabalhos como O Céu de Sueli e A Vida Invisível. Percorrendo um mundo tão masculino, nas ruas de Argel e de Tagmut Azuz, percebe-se que é o olhar de Iracema, afinal, que sustenta a maneira como o diretor interpreta seus signos.  
 
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