Conforme prova o cinema romeno filme após filme, a Romênia é um país peculiar – mas também não muito diferente do Brasil, apesar da distancia geográfica. Futebol Infinito é mais uma adição ao cânon do absurdo local figurado pelo cinema do país, que ganhou um novo fôlego no final da primeira década do século XXI. O documentário dirigido por Corneliu Porumboiu (Polícia, Adjetivo) é uma pequena joia de humor e utopia e, especialmente, da inocência perdida por conta da roda da História.
Porumboiu volta à cidade de Vasliu, sua terra natal, e reencontra o irmão de um amigo seu de infância, Laurentiu Ginghină, um ex-jogador de futebol amador que parou com o esporta há algumas décadas quando, durante uma partida amadora, quebrou a tíbia. Ele abandonou a prática de futebol, mas não, digamos, a teoria. Nesses mais de 30 anos, entre outras coisas, redesenhou o esporte para, conforme explica, dar mais emoção.
Ginghină é uma figura ímpar que, se estivesse num filme de ficção (romeno, ou não), alguns diriam que era um personagem exagerado. Dono de um carisma e melancolia na mesma proporção, o sujeito explica suas sugestões de melhorias para o esporte com riqueza de detalhes, e as discute como se fossem questões de vida ou morte – idêntico, aliás, à forma como alguns praticam futebol. Sua ideia é dar “mais liberdade à bola” que “é a estrela do jogo”. Sua reorganização do esporte geraria o futebol 2.0, 2.9, 3.0, ou até o 4.0 – ou seja, as opções de evolução são infinitas, daí o título do documentário.
Mas Ginghină não vive de futebol (se é felizmente ou infelizmente é uma questão de debate). Ele tem um escritório, onde é um burocrata. Uma longa entrevista lá é a parte central do longa, já que ele acaba se comparando a Clark Kent: ambos levam uma vida dupla. Ele é cheio de sonhos e planos, mas tudo foi, aos poucos, sendo frustrado, seja por erros dele ou pela roda da História que esmagou possibilidades. Ginghină talvez seja o fruto da Romênia pós-União Soviética, onde uma utopia se esvaiu ao longo dos anos. O acidente desse homem, no final dos anos de 1980, serve como um evento simbólico do fim da utopia. No fundo, ele é um sonhador, e as mudanças no futebol são apenas uma de suas propostas para um mundo melhor, por assim dizer. O longa encontra o que há de mais humano nele, transcendendo tempo e espaço, e abrindo um diálogo até com quem nada entende de futebol mas, mesmo assim, como Ginghină, sonha com um mundo melhor.
