Dirigido pela cineasta franco-alemã Ursula Meier, este drama eventualmente histérico delimita o relacionamento extremado entre uma mãe, a ex-cantora e pianista Christina (Valeria Bruni Tedeschi), e suas três filhas, Margaret (Stéphanie Blanchoud), Louise (India Hair) e a caçula, Marion (Elli Spagnolo, um encanto).
O filme já começa em voltagem extrema, com uma briga violenta entre Margaret e a mãe, que termina com muitos objetos quebrados e a mãe ferida. O incidente, que não é o primeiro causado por Margaret, acarreta-lhe uma medida de restrição de contato - ela não pode chegar mais perto do que a 100 metros da mãe, a linha de que fala o título.
Diretora de filmes como Minha Irmã (2021), Ursula coloca nas mãos de suas personagens uma história visceral de dependência, afeto, cobranças, culpas e o desejo da caçula, Marion, de tudo consertar com suas orações - um esforço não raro comovente, dadas as circunstâncias.
O roteiro, assinado pela diretora, a atriz Stéphanie Blanchoud - que defende o papel mais difícil de todos - e Antoine Jaccoud põe em marcha o retrato de uma família alquebrada, fragmentada, em que a busca de amor de cada um dos integrantes se dá por vias tortas. Margaret procura amor e aceitação da mãe, que por sua vez encontra mais satisfação no relacionamento com inúmeros namorados do que na maternidade, O oposto disso é a filha do meio, Louise, grávida de gêmeos e a mais ligada à domesticidade. Os homens entram nesse mundo como coadjuvantes, com destaque para Benjamin Biolay, o amigo que tenta segurar as pontas de Margaret no auge de sua crise pessoal.
Num filme com tantos papeis femininos de peso, a diretora optou por desfiar os caminhos de uma feminilidade em crise, exasperada, mas que não perde a esperança na sororidade, ainda que difícil.
