03/07/2026
Drama Histórico

Os colonos

Chile, virada do século XIX para o XX. Um latifundiário contrata três mercenários na região da Terra do Fogo para proteger suas terras. Entre eles está Segundo, um mestiço que, com o tempo, começa a perceber o que realmente está por trás desta missão. Na Mubi.

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Escolhido pelo Chile como seu representante no Oscar, Os Colonos é um drama histórico de profunda beleza visual e uma crítica sócio-histórica certeira, mostrando como o passado colonizador ainda ressoa no presente – não apenas do Chile, mas da América Latina inteira, em sua cruel dizimação dos povos originários.

O filme é dirigido pelo estreante Felipe Gálvez Haberle, que demonstra um impressionante domínio estético, narrativo e, acima de tudo, político-social, ilustrando a máxima de Walter Benjamin, para quem “todo monumento de civilização é um monumento de barbárie”. O processo dito civilizatório, como bem comprova a história, consiste na imposição do um modo de vida pelos donos do dinheiro e, consequentemente, do poder.

No Chile do século XIX, um tenente escocês, Alexander MacLennan (Mark Stanley), e um caubói americano, Bill (Benjamin Westfall), importado do Texas, atravessam o país rumo ao extremo-sul, a Terra de Ninguém, contratados por um grande proprietário da elite local, José Menéndez (Alfredo Castro), com propósitos sanguinários. Eles são acompanhados por um mestiço, Segundo (Camilo Arancibia), convocado por sua perícia como atirador e que observa muito atentamente, mas sem poder de agência.

Escrito por Antonia Girardi, Gálvez Haberle e Mariano Llinás, o roteiro, no entanto, aos poucos assume o ponto de vista desse indígena, transformando o longa num western pós-colonial de tintas fortes na fotografia de Simone D'Arcangelo. O filme é dividido em três partes, cada uma se iniciando com grandes letreiros vermelho-sangue.

O tema central é o massacre dos povos originários, mas Gálvez Haberle constrói a dramaturgia de forma assombrosa – com ajuda da trilha espectral de Harry Allouche –, fazendo deste um filme ao mesmo tempo épico e intimista em seu retrato íntimo das pessoas e do processo histórico.

A janela acadêmica, o formato quadrado, parece ser o favorito para os filmes históricos sobre processos de colonização. É sufocante e, ao mesmo tempo, tenta reduzir a grande paisagem virgem dos arredores da Cordilheira dos Andes. O resultado é um filme que parece de uma outra época – lembra e muito a estética da Nova Hollywood dos anos de 1970. Se Onde os homens são homens, de Robert Altman, não for uma referência aqui, Gálvez Haberle o fez de forma inconsciente. Tanto a maneira como a luz incide, ou os zooms, tudo remete a um passado imemorial.

O prólogo que coloca em cena a elite é devastador. É o elemento que junta passado e presente, em sua reverberação na destruição e no movimento de barbárie. Ao mesmo tempo, a cena final é lindamente a resistência e, talvez, uma gota de esperança diante da dita civilização.

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