03/07/2026
Drama

Mal viver

Num hotel de propriedade de uma família, quatro mulheres cuidam da administração e limpeza, nutrindo entre si um relacionamento tenso e difícil. A este ambiente chega Salomé, filha de uma delas, Piedade, em busca de um acerto de contas com a mãe. Nos cinemas.

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O cineasta português João Canijo conquistou um Urso de Prata (Prêmio do Júri) para este seu nada fácil Mal Viver, um longo e cansativo drama claustrofóbico envolvendo cinco mulheres num hotel.  

Ele cria um huis clos neste hotel, onde mulheres de uma mesma família se degladiam impiedosamente, numa inspiração declarada no dramaturgo sueco August Strindberg. São elas Sara (Rita Blanco), suas filhas Piedade (Anabela Moreira) e Raquel (Cleia Almeida), e sua sobrinha Angela (Vera Barreto). Ali confinadas e vivendo uma dinâmica emocional muito peculiar, elas assistem à volta da filha de Piedade, Salomé (Madalena Almeida). A moça chega, depois da morte do pai com quem vivia, com uma bagagem de cobranças profundas à mãe, com quem deixou de viver desde os 12 anos. 

Entre elas, Ângela (Vera Barreto) é uma espécie de faz-tudo, da cozinha à limpeza, que assiste de camarote ao duelo de palavras ácidas e cruéis incessantemente trocadas entre estas mulheres, que as aprisiona inapelavelmente num jogo sufocante, num crescendo de aspereza e aridez emocional que testa os limites, inclusive do espectador. 

O confronto entre estas parentas exerce-se mais pelo ressentimento, pelo ódio contido, do que pelo amor, por mais que eventuais tentativas de aproximação, especialmente da recém-chegada Salomé, procurem o contrário. Mas Piedade não demonstra nutrir pela filha, assim como pela própria mãe, nenhuma possibilidade de afeto, este reservado apenas à sua inseparável cadelinha, Alminha, cujo nome é sugestivo daquilo que, em última análise, parece faltar a todas estas pessoas.

O hotel também exibe sinais de decadência, tendo vivido em passado remoto melhores dias, o que lhe confere o posto de ambiente ideal para o desenrolar deste interminável confronto a fogo lento - eventualmente compartilhado por escassos hóspedes, que serão mais bem delineados, assim como alguns destes conflitos, em outro filme que completa o díptico, Viver Mal, que foi também exibido no Festival de Berlim 2023, na seção Encontros. 

O elenco tão qualificado de atrizes não atenua a insinuação de um tom misógino no retrato deste universo feminino tão desesperado, em que homens são visitantes eventuais, e cuja miséria humana é tão devastadora e completa. Parecem ter faltado nuances que não roubassem a estas personagens, fossem o que fossem, aquele traço mínimo de humanidade que, afinal, lhes desse maior credibilidade, ainda que não se lhes procurasse empatia. 

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