18/07/2026
Documentário

Servidão

Documentário aborda a persistência de situações de trabalho análogas à escravidão 136 anos após a proclamação da Lei Áurea. No Sesc Digital (de 18-4 a 18-6-2024).

post-ex_7

Falar em “abolicionistas” no Brasil do século 21 pode parecer exagero. No entanto, o número de pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão no País não deixam dúvidas - foram nada menos de 63.000 desde 1995, quando foi instituída a fiscalização móvel do Ministério do Trabalho. Só no ano passado, ocorreram mais de 3.000 resgates, particularmente nos estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Essa chaga viva no corpo da nação ocupa o documentário Servidão, em que o cineasta Renato Barbieri investiga muitos aspectos de uma questão complexa, através dos depoimentos de ex-escravizados, fiscais, auditores, procuradores, juízes, ativistas e estudiosos. 

Impossível ignorar as raízes do problema, que remontam à escravidão dos séculos 16 ao 19, em que o Brasil foi o destino de quase metade dos africanos capturados para esse abominável fim, quase cinco milhões de pessoas (estima-se que, em todo o continente americano, o total tenha atingido 12 milhões). Depois destes quatro séculos de ultra-exploração, os escravizados viram esvair-se parte de suas esperanças com a Lei Áurea de 1888, que os emancipou nominalmente mas não reservou nenhuma espécie de apoio para uma nova vida, nem educação, nem acesso a terras. Um efeito perverso disto permanece nas deploráveis condições de vida de parte considerável da população brasileira todos estes séculos depois - e são estes destituídos os alvos desta nova forma de escravização, que se traduz em condições degradantes de trabalho, violência, ultra-exploração e até mesmo a morte.

Analistas, inclusive internacionais, concordam que instrumentos legais não faltam. A legislação brasileira neste aspecto é alvo de elogios, assim como a atuação destemida do Grupo Móvel, em que auditores fiscais do trabalho verificam denúncias in loco, não raro em locais de difícil acesso e perigo constante. A área rural abrange a maior parte destas denúncias, em lugares em que a escravização quase sempre é acompanhada de outros crimes, como a devastação ambiental. Os riscos são evidentes, como demonstra a chamada chacina do Unaí (MG), em que auditores fiscais foram executados por matadores a soldo de fazendeiros, em 28 de janeiro de 2004, por isso mesmo eleito o Dia Nacional do Combate ao Trabalho Escravo.

Nada mais eloquente deste filme-denúncia do que os depoimentos de vítimas, como Marinaldo Soares Santos, o trabalhador maranhense 13 vezes escravizado e resgatado pelo Grupo Móvel e que esclarece, como só a sua vivência pode fazer, as razões por trás desta lamentável repetição de condições. Já é mais do que tempo que o Brasil supere essa página infeliz e inclua, de uma vez por todas, a totalidade de sua população.

 

post