25/06/2026
Drama

Todos nós desconhecidos

Adam é um roteirista que vive em crise e deprimido pela morte dos pais há 30 anos. Um dia, visitando a casa onde cresceu, reencontra os pais, que parecem estar vivos ali ainda. Surge, então, a chance de acertar as contas com o passado.

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O britânico Andrew Haigh construiu uma carreira com filmes de arte de bom gosto. São dramas com a câmera bem posicionada, fotografia caprichada e temas tidos como relevantes. Boa parte desses longas lidam com questões relativas à comunidade gay, como Fim de Semana e Looking: O Filme. Em Todos nós desconhecidos, novamente, ele está em sua zona de conforto, que deixou brevemente com 45 Anos, sobre um casal hétero de meia-idade (Charlotte Rampling e Tom Courtenay) que está prestes a completar 45 anos de casados, mas um fantasma do passado volta a assombrá-los. 

Aqui, Haigh coloca em cena o que há de mais celebrado em seu cinema. É tudo muito limpinho, muito arrumadinho e um tanto inócuo. Há uma suposta revelação na cena final, mas que é perceptível muito antes de chegar lá. E isso não é exatamente um problema, por assim dizer, mas o alarde que o filme faz quando traz isso à tona faz parecer que é algo muito inesperado. 

Partindo de um romance do japonês Taichi Yamada (já adaptado pelo nipônico Nobuhiko Ôbayashi, em 1988), Haigh, que assina o roteiro, transporta a ação para a Londres contemporânea, um lugar asséptico, um cenário vazio e quase apocalíptico. Adam (Andrew Scott) é um roteirista em crise criativa, empacado num trabalho que não avança, por mais que tente. Numa noite, quando um alarme de incêndio dispara em seu prédio, ele desce até a rua, e conhece, por acaso, Harry (Paul Mescal).

Não há dúvidas de que Haigh tenha a melhor das intenções do mundo, mas o inferno cinematográfico também está cheio delas. Ao retratar Adam como solitário, infeliz e com dificuldade de se conectar com outras pessoas, o filme cai no estereótipo do gay infeliz e solitário, numa interpretação sem muita nuance de Scott. 

Entre uma noite de amor e outra com Harry, Adam acaba indo visitar a casa onde passou sua infância com os pais (Claire Foy e Jamie Bell) que morreram há algumas décadas num acidente. Surpreendentemente, ele os encontra morando lá com a mesma idade e aparência de quando morreram. Se isso é um jogo de memória, alucinação ou realmente os espíritos estão ali, pouco importa. 

O filme está interessado na dinâmica que o personagem estabelece com eles. É uma forma de os atualizar sobre o presente e tentar emendar os erros do passado. A mãe, por exemplo, fica assustada quando o filho conta que não tem namorada e, na verdade, nunca terá, pois, confessa, é gay. A mentalidade dela é de um passado em que se assumir é motivo de vergonha ou algo parecido, mas acaba compreendendo, e teme pelo filho contrair AIDS, um tema em voga na época em que morreu. Já com o pai, o protagonista também irá lidar com fantasmas e traumas do passado. 

As cenas com os pais parecem saídas de dezenas de outros filmes, e nunca encontram uma coesão orgânica. Assim como a revelação final, as coisas aqui soam artificiais, criadas apenas para um efeito, e não para ser vividas pelos personagens. Para que a catarse emocional realmente acontecesse era preciso que as intenções nobres se encontrassem refletidas na forma fílmica – o que não é o caso. E Haigh faz um filme frio e asséptico tal qual a Londres distópica em que ele situa a ação. 

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