O documentarista Chaim Litewski está sempre interessado em esmiuçar momentos obscuros ou mal resolvidos da história do Brasil. Foi assim com seu Cidadão Boilesen, premiado no É Tudo Verdade de 2009, sobre o famoso empresário dinamarquês radicado no Brasil, notoriamente um dos financiadores da repressão na ditadura.
Dirigindo ao lado de Cleisson Vidal, em Morcego Negro ele faz uma investigação detalhada da morte de PC Farias, empresário e chefe de campanha de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial de 1989, assassinado em 1996, num caso até hoje nebuloso. Composto de vários depoimentos, inclusive do ex-presidente que sofreu impeachment em 1992, o documentário é, no fundo, um questionamento sobre a perpétua relação entre dinheiro e campanhas políticas no Brasil.
Um homem que acendia charutos com dinheiro, ex-professor de latim e francês num colégio, um sujeito abjeto, um homem de muitas qualidades... são todas frases que pululam na abertura do filme. Depoimentos que expõem a figura contraditória que era PC. O mais cínico, no entanto, é o de Fernando Collor, comparando o ex-amigo aos corruptos da atualidade, e decretando: “Ele foi um anjo.” Com um rico material jornalístico de arquivo, o longa é um retrato impressionante.
PC conheceu Collor no final dos anos de 1970, definindo-o como “uma pessoa brilhante”. Era uma figura que se esforçava para ser refinada – como conta Thereza Collor de Mello, viúva de Pedro Collor, irmão de Fernando, em cujo casamento ele foi padrinho. “Morcego Negro”, aliás, era o nome do avião particular de Farias.
Ao colocar ao centro um dos assassinatos mais famosos da história do país, o filme flerta com um gênero em voga, o do “crime verdadeiro”, mas a questão é mais complexa do que os retratos de psicóticos despejados semanalmente na Netflix.
Os depoimentos se complementam, se contradizem, jogam novas peças no tabuleiro. Suzana Marcolino, namorada de PC na época, foi encontrada morta ao lado dele. Badan Palhares se tornou o legista mais famoso do Brasil ao concluir que o crime foi um assassinato seguido de suicídio. Suzana teria matado o namorado e se suicidado em seguida. Essa versão de crime passional, no entanto, foi logo contestada. Outro legista, George Sanguinetti, levanta outra hipótese: havia uma terceira pessoa no quarto.
Mas, como bem lembra o jornalista Xico Sá no filme, havia inúmeros elementos em questão: impeachment, sobra de dinheiro de campanha, depoimento de PC na CPI das empreiteiras, que seria dali a quatro dias – o crime pode estar ligado a tudo isso. “O romance policial é muito vasto”, decreta o jornalista.
Morcego Negro, ao fim, nos lembra que alguns crimes jamais serão esclarecidos completamente – especialmente um como esse, envolvendo tanto dinheiro, um possível elo com o narcotráfico internacional e figuras tão notórias.
Mas, enquanto documentário, Litewski e Vidal dão uma lição sobre filme investigativo, cuja narrativa é construída com sagacidade, num ritmo de suspense.
