A diretora Delphine Deloget convence logo na estreia, com este drama, também co-escrito por ela, que teve sua première mundial na seção Un Certain Regard em Cannes e em que se vale do grande talento de sua protagonista, a atriz Virginie Efira. Versátil e sem medo de encarar papeis arriscados e muito diferentes, Virginie brilha na pele de Sylvie, uma mãe solteira que cria dois filhos sozinha e perde a guarda do caçula, Sofiane (Alexis Tonetti), depois de um acidente doméstico.
Sylvie, que trabalha à noite num bar, não estava em casa quando Sofiane, de 8 anos, sofreu queimaduras quando tentava fritar batatas. Seu irmão mais velho, Jean-Jacques (Félix Lefebvre), naquele dia havia se atrasado. Esta série de incidentes coloca Sylvie no meio de uma complicada estrutura governamental de assistência social, que entende por bem tirar-lhe o filho provisoriamente. Ela protesta, mas não consegue impedir a traumática separação.
Esta interferência estatal na esfera da família tem o poder de tumultuar completamente não só sua rotina como todo o precário equilíbrio que a mantinha. Os burocratas não enxergam o quanto é afetuoso este núcleo familiar, vendo na relativa desordem da casa e nos horários heterodoxos da mãe um obstáculo invencível para a defesa dos direitos do menino - que nunca é sequer ouvido pela assistente social Louise Henry (India Hair).
Delphine Deloget explora muito bem esse contraste entre a impessoalidade das instituições e a particularidade desta mãe corajosa, íntegra, que luta como uma leoa contra uma montanha de barreiras crescentes. Quanto mais ela se dispõe a seguir as regras ordenadas pelos burocratas, mais ela perde sua identidade e se esgarçam os fios que a mantêm unida aos filhos.
Com Sofiane longe, pode-se acompanhar a jornada de Jean-Jacques, o irmão adolescente que também vê diluídas suas conexões, seus valores, somando insegurança num momento da vida em que ele deve fazer opções para a vida adulta.
O ponto alto do filme é a honestidade com que retrata seus personagens, incluindo os dois irmãos de Sylvie, Alain (Mathieu Demy) e Hervé (Arieh Worthalter), traçando a complexidade dos papeis masculinos e femininos nesta família bastante comum, sujeita a intempéries emocionais e econômicas e fraturada pela perda do menino.
Por tudo isso, Tudo ou Nada é um filme que se segue com interesse, envolvendo no engajamento por esta heroína anticonvencional e amorosa que, em algum momento, deverá encontrar um atalho para contrapor uma ordem que não consegue satisfazer. São muitas as camadas que o filme acumula e este percurso é sempre acompanhado com interesse e empatia.
