As possibilidades abertas por um encontro fortuito estão no centro de A Matéria Noturna, em que o diretor e roteirista capixaba Bernard Lessa une os destinos de Jaiane (Shirlene Paixão) e Aissa (Welket Bungué). Dois seres em movimento, cada um a seu modo - ela, motorista de aplicativo, ele, um marinheiro moçambicano momentaneamente parado em Vitória, cenário do filme.
Não é uma Vitória turística a que se verá nas andanças destes dois personagens e sim uma cidade mais dura e despojada, não sem algum colorido, como as rodas de samba em que Jaiane costuma cantar, num contraponto a uma vida em que ela procura enxergar um novo sentido, depois de uma experiência emocional traumática.
Aissa entra neste ambiente sem maiores conflitos, como um homem curioso pela nova paisagem, embora não lhe faltem raízes - como fica explícito em sua conversa com a irmã, via Skype.
Mas é da fluidez do cotidiano e destas relações que, bem ou mal, procuram assentar-se na transitoriedade de tudo, que o filme procura falar, sem calcar a mão em nenhuma ênfase. Nota-se a mão leve do diretor, aqui em seu segundo longa - o primeiro foi A mulher e o rio (2019) - em acompanhar seus personagens como se fosse uma câmera invisível seguindo alguém no cotidiano, sem que percebesse. É da pele, do corpo destes personagens que o filme constrói seu espaço e sua contemporaneidade, observando-os com interesse e ternura, sem assentar nenhuma tese, nenhum julgamento.
Ator versátil, visto em produções internacionais como Berlin Alexanderplatz (2021) e Crimes do Futuro (2022) e também brasileiras, como A Viagem de Pedro (2021) e Corpo Elétrico (2017), o ator guineense Welket Bungué empresta seu carisma a este personagem de maneira natural, em que até seu sotaque é um detalhe cabível. Ao seu lado, a também diretora Shirlene Paixão oferece a mesma dose de espontaneidade, armando uma crônica da existência fugidia desta geração.
