Documentarista conhecido por títulos como Tão Perto, Tão Longe e A História do Homem Rabino Sobel, André Bushatsky debruça-se sobre uma história comovente na ficção Domingo à Noite, em que conta com o talento de dois veteranos, Marieta Severo e ZéCarlos Machado.
Partindo do afinado roteiro de Bruno González, o diretor encena o dilema de um casal, Margot e Antônio, que estão juntos há 50 anos. Ela, atriz de sucesso, ele escritor, vivendo numa bela casa, isolada na natureza. O equilíbrio desta vida a dois é drasticamente rompido pelo Alzheimer de Antônio que, perdendo a memória, perde as palavras que constituíram seu ofício e mergulha numa diluição acelerada da própria identidade.
Assumindo para si a tarefa de cuidar de Antônio, dispensando as enfermeiras que sua filha, Francine (Natália Lage), periodicamente lhe envia, Margot sustenta um equilíbrio difícil entre esta vida pessoal e a manutenção da própria carreira. Neste momento, procura finalizar um filme que produziu e protagoniza, mas acontece um imprevisto: sua médica (Bárbara Santos) lhe diz que ela também apresenta os primeiros sinais do Alzheimer. A descoberta desencadeia uma corrida contra o tempo e obriga Margot a dividir a notícia com os filhos, Francine e Guto (Johnnas Oliva).
Na bela casa perto do mar que serve de cenário à história, a família enfrenta um tenaz reencontro com o passado. E é notável como o filme consegue evitar o excesso melodramático, focando numa personagem como Margot, tão impregnada da própria autonomia, levada às últimas consequências, com uma lucidez impressionante. Ao seu lado, ZéCarlos Machado interpreta com sobriedade um personagem fragilizado, a quem compete fazer um contraponto com a força da mulher, o que denota a profundidade da ligação deste casal - eventualmente clarificada também por um ou outro flashback.
Os filhos chegam a esta situação como um outro contraponto, até de geração e personalidade, fazendo intervenções e oferecendo caminhos que Margot não está disposta a seguir. Se há uma grande vertente nesta história é a afirmação da absoluta importância do livre arbítrio e da visão da velhice como um período também de escolhas e realização, como qualquer outro. Bushatsky acerta no tom da direção, que é sutil, contando com um admirável conjunto em que se destacam a direção de arte e a fotografia.
