03/07/2026
Drama

Rivais

No passado, os tenistas Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O'Connor) eram grandes amigos, mas a chegada de Tashi (Zendaya) mudou a vida e a amizade dos dois. Hoje, na quadra, eles competem não apenas no jogo, mas também para chamar a atenção dela. Na Amazon Prime (para locação).

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Há muito tempo – possivelmente desde Fallo!, de Tinto Brass – um jogo de tênis não exalava tanta sexualidade. E desde, possivelmente sempre, um filme nunca mostrou tanto abuso de uma raquete (sim, essa é uma expressão real). Rivais, do italiano Lucca Guadagnino, é um filme que leva o ménage à trois para uma quadra de tênis, e a relação é um jogo tenso entre dois tenistas acompanhado pelos olhares atentos de uma mulher. 

Escrito pelo dramaturgo Justin Kuritzkes, o filme tem uma maneira intrincada de narrar sua trama, indo e vindo no tempo, sempre com letreiros na tela, que, deliberadamente, confundem. O presente é, obviamente, a somatória das escolhas, corretas e incorretas, do passado. É algo banal, corriqueiro, mas que parecemos esquecer a todo momento, e o filme mais do que nos lembrar, nos mostra isso. Pode parecer, num primeiro momento, uma confusão narrativa, mas não é. A engenhosidade da narrativa está exatamente em emular uma partida de tênis, sendo que de cada lado da quadra está uma linha temporal diferente. 

Todas elas são protagonizadas pelo mesmo trio. No presente, Art Donaldson (Mike Faist) é um jogador de tênis desanimado que já viveu dias melhores, mas ainda se destaca no jogo. Sua treinadora é Tashi (Zendaya), que, por acaso, também é sua esposa. Na quadra, ele duela com Patrick Zweig (Josh O'Connor), e essa partida, no presente, será o fio condutor de toda a narrativa. Ao contrário do adversário, Patrick não tem mais sucesso no tênis, e uma vitória seria fundamental para reerguer sua carreira.

No passado, Art e Patrick eram grandes amigos, e Tashi, uma promessa do tênis. Ela se envolveu com Patrick, mas, ao longo dos anos, as coisas mudaram quando uma fratura no joelho a tirou das quadras. Anos depois, ela está com Art, e Patrick já não faz mais parte da vida de ambos. Essas são linhas muito gerais de uma trama construída meticulosamente, que só se revela aos poucos. E nisso reside um dos maiores prazeres do filme, como cada giro no tempo representa uma nova volta no parafuso narrativo, uma complicação explicando que, no jogo atual, não é apenas a vitória na quadra que está em questão. 

Ao mesmo tempo engraçado e tenso, Rivais exala sensualidade por todos os poros, a começar pela trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, que serve como um anúncio que a trama vai girar para o passado, construindo assim uma continuidade dos tempos. Já o trabalho de Guadagnino com o diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom (parceiro costumaz de Apichatpong Weerasethakul) é quase inexplicável. Para se ter uma ideia, a certa altura, a câmera assume o ponto de vista da bola de tênis do jogo. Mas nada disso funcionaria sem a montagem sincopada de Marco Costa. Como deixar um jogo de tênis empolgante, quase sexual? Rivais responde com graça e estilo. 

Já o trio central está à altura do desafio. Zendaya firma-se cada vez mais como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. De Homem Aranha a Duna, ela se reinventa e aqui, numa personagem forte, é o centro da ação do filme. Se os dois personagens masculinos reagem, é ela quem age, que dá as diretrizes para os caminhos da narrativa. É uma interpretação madura para uma personagem que, facilmente, poderia cair num estereótipo de vilã mas, como Art e Patrick, ela é repleta de nuances que são reveladas nas idas e vindas do tempo. 

Muito se fala sobre como contar uma história no presente contemporâneo, na impossibilidade de se narrar, de se dar conta da figuração do tempo em que vivemos. Rivais é a prova de que narrar linearmente é impossível mesmo, a linha temporal das nossas vidas é um novelo embaralhado, e que todos estamos em quadra, em campo ou mesmo na rua, ainda que não saibamos, disputando narrativas – para usar uma expressão também muito em voga. 

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