02/07/2026
Drama Fantasia

Conto de fadas

Num purgatório, Hitler, Stalin e Mussolini se encontram e discutem suas trajetórias e suas decisões que marcaram o século XX. A eles, se juntam outras figuras como Churchill, Napoleão e até Jesus Cristo. Na plataforma Reserva Imovision (a partir de 21/6).

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Um dos grandes artistas da contemporaneidade, o russo Alexander Sokurov, novamente extrapola os limites do cinema com seu Conto de Fadas. Não poderia haver um título mais irônico para esse filme sobre ditadores europeus do século XX ardendo na consciência do purgatório. Combinando imagens históricas com uma técnica de animação que dá vida aos personagens históricos, o cineasta realiza um verdadeiro filme de terror ao “ressuscitar" figuras como Hitler, Mussolini, Stálin e Churchill. 

Ditadores são um tema caro ao diretor, que no começo do século XXI realizou uma trilogia sobre Hitler (Moloch), Lênin (Taurus) e o imperador Hiroíto (O Sol). Agora, novamente ele se debruça sobre tiranos, mas numa chave diferente. A presença desses homens no filme é quase espectral, num espaço preto e branco acinzentado, onde eles se movem, falam, conversam entre si e quase riem do destino da humanidade. Napoleão também tem uma participação especial, assim como Jesus Cristo, que embora não tenha sido um ditador, é, certamente, uma figura-chave no destino da humanidade. 

Cada um deles fala em sua própria língua. Hitler é dublado por Lothar Deeg e Tim Ettelt; Vakhtang Kuchava dubla Stálin; Mussolini é feito por Fabio Mastrangelo, e Churchill por Alexander Sagabashi e Michael Gibson. Essa polifonia que se sobrepõe acrescenta uma nova camada de fantasmagoria nessa investigação de como chegamos aqui, um mundo do presente marcado pela ascensão de novos fascismos, não apenas na Europa, como bem sabemos. 

Embora esses homens falem muito, pouco têm a acrescentar sobre o mundo ou mesmo suas trajetórias. Essa talvez seja a grande força narrativa de Conto de Fadas. Não há nada de novo que eles tenham a dizer. O mundo chegou a um momento em que não existem explicações que justifiquem seu estado, ou mesmo esclareçam. Hitler lamenta não ter destruído Paris, mas não menciona o Holocausto.

Sokurov, enquanto artista, sempre questionou os limites da representação – especialmente da História. Aqui, ele subverte expectativas, seja na narrativa histórica ou no cinema. Seu filme parece mais uma instalação, cuja apreciação demanda mais do que seus 80 minutos de duração. É uma obra que queremos olhar por vários ângulos, afinal, cada um iluminará um ponto. Deveria ficar passando ininterruptamente (e isso só seria possível numa Bienal, digamos) – assim como o fluxo da História, que nunca para. 

 

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