03/07/2026
Drama

O sequestro do papa

Na Bolonha de 1858, um dos estados pontifícios, o papa Pio IX manda retirar da família judia Mortara um de seus filhos, o pequeno Edgardo, de 6 anos, que teria sido batizado em segredo por sua babá e, por isso, se tornado cristão. A luta dos pais para recuperar o filho se mistura às guerras políticas na véspera da unificação da Itália. Na Apple TV e Prime Video.

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O veteraníssimo italiano Marco Bellocchio resgata com elegância e andamento  clássico uma história real de abuso de poder e religião na Itália em processo de unificação do século XIX. 

Calcado no naturalismo, Marco Bellocchio apossou-se com a sua habitual contundência de um episódio no século XIX, conduzindo um relato reflexivo e emocionalmente engajador. A incrível história baseia-se em fatos ocorridos na Bolonha de 1858. A mando do Papa Pio IX (Paolo Pierobon), o menino judeu Edgardo Mortara (Enea Sala), de 6 anos, foi arrancado de sua família, por ter sido supostamente batizado em segredo por sua babá - o que o tornava cristão. Por anos, seus pais (Fausto Russo Alesi e Barbara Ronchi) lutaram por todos os meios para recuperar o menino, que é criado num internato católico, sob estreita supervisão do papa, como uma espécie de troféu. O máximo que conseguiram foi visitá-lo de tempos em tempos, ao mesmo tempo que eram lembrados de que apenas sua conversão ao catolicismo poderia restituir-lhes o filho. 

O contexto político é fundamental para o desenrolar dos acontecimentos. Na época, Bolonha era um dos estados pontifícios, o que dava ao papa autoridade política sobre seu território. Ao mesmo tempo, naquele momento líderes como Garibaldi e Mazzini moviam-se pela unificação da Itália, que viria finalmente a retirar ao papado o seu poder político. O jovem Mortara fora também um dos reféns desta guerra em que a política e a religião se misturaram, num processo que expõe os abusos cometidos em nome de Deus ao longo da História que tanto agradam ao engajado cineasta italiano.

De nada serviram não só os desesperados esforços dos pais para recuperar o filho, nem os protestos movidos por figuras poderosas da época, como o imperador francês Napoleão III e a família de banqueiros Rothschild - a quem, aliás, o Vaticano devia muito dinheiro então. 

Anos atrás, o livro de David Kertzer, O Sequestro de Edgardo Mortara, que descreve minuciosamente o caso, havia interessado ninguém menos do que Steven Spielberg, que acabou abrindo mão do projeto, que felizmente caiu em boas mãos. Um grande acerto na adaptação de Bellocchio é reconstituir o cotidiano do menino no internato católico, entre pessoas e rituais que lhe são completamente estranhos - a começar pela missa em latim -, permitindo avaliar o impacto emocional, o que permite engajamento da plateia. Mas nem por isso o diretor deixa de ressaltar o acirrado processo político que ocorre naquele momento da Itália. 

Pode-se comemorar como continua intacta a maestria do veterano diretor italiano, que brindou o cinema com obras-primas já a partir de sua estreia, De Punhos Cerrados (1965), passando por contundentes obras recentes - Bom Dia, Noite (2005), Vincere (2010), A Bela que Dorme (2013) e a série Esterno Notte (2022). Sua perícia se comprova especialmente na maneira como é capaz de articular o público e o privado, sem deixar de enlaçar o político em tudo. Bellocchio é certamente o último representante de uma geração de ouro do cinema italiano. Tomara que possa deixar herdeiros.

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