A francesa Marina Foïs é uma grande atriz, mas, obviamente, sozinha ela não consegue salvar um filme sem rumo e com escolhas questionáveis. Salamandra é dirigido pelo brasileiro Alex Carvalho e se passa em Recife, onde a personagem dela, Catherine, se muda depois da morte do pai.
Baseado num romance de Jean-Christophe Rufin, adido cultural do Consulado Geral da França em Recife de 1989 a 1990, o filme tem sérios problemas no ponto de vista pelo qual a história é narrada: o de Catherine, portanto, uma visão europeia sobre o Brasil, marcada por um olhar carregado de clichês visuais e estereótipos humanos até chegar na sexualização exacerbada de corpos negros, no caso, o jovem Gil (Maicon Rodrigues), de quem a francesa se torna amante.
O romance tórrido quase lembra aqueles sub-clássicos dos anos de 1980, quando um homem estrangeiro vinha para o Nordeste brasileiro, onde se envolvia com uma bela jovem, o que servia de desculpa para tórridas cenas de softcore. Aqui, apesar dos gêneros invertidos, a dinâmica é praticamente a mesma.
É claro que Carvalho tentou introduzir elementos de desconforto nesse ponto de vista da mulher europeia observando e vivendo no Brasil, mas o filme derrapa em todos os clichês. Os personagens, franceses ou brasileiros, não possuem uma característica que os redima. São todos interesseiros, um tanto mesquinhos e individualistas numa chave que nunca flerta com a sátira, ou seja, tudo é levado muito a sério.
Talvez haja, em algum lugar enterrado nas areias das praias, um olhar mais crítico, mas Salamandra não consegue materializá-lo em quase suas duas horas de duração. Este é o primeiro longa do diretor pernambucano, que enfrenta problemas, mais de ordens ideológicas e formais do que qualquer outra coisa, aqui. Questões com que talvez um diretor ou diretora mais experientes conseguissem lidar de outra forma.
