A magnífica série em seis episódios do diretor italiano Marco Bellocchio retorna ao tema já explorado num de seus melhores dramas anteriores, Bom dia, noite (2003) - ou seja, o sequestro e morte do presidente da Democracia Cristã, Aldo Moro, em 1978. História e política infiltram-se de maneira singular na obra deste que é o maior diretor italiano vivo, remanescente de uma geração de ouro, da qual fizeram parte Bernardo Bertolucci e Ettore Scola, que vinham na esteira de outra não menos brilhante, integrada por Federico Fellini, Michelangelo Antonioni e Elio Petri, para citar alguns. Assim, no cerne desta ambiciosa série em suas cinco horas e meia, está uma aguda reflexão sobre não apenas as circunstâncias do evento dramático de 1978 mas suas terríveis consequências, que perduram na história de uma Itália que acaba de cair, novamente, nas mãos da extrema-direita, com a eleição de Giorgia Meloni como primeira ministra, à frente de um bloco de partidos que inclui os de Matteo Salvini e Silvio Berlusconi.
No esplêndido roteiro, assinado por Bellocchio, Ludovica Rampoldi, Stefano Bises e Davide Serino, Aldo Moro (o magnífico Fabrizio Gifuni) emerge com toda sua complexidade. Ou seja, como um homem profundamente ético e católico, mas também um político hábil na leitura das circunstâncias de seu tempo e na condução dos humores internos da Democracia Cristã, um partido marcado por um apetite insaciável pela corrupção. Dentro desse pragmatismo astuto, Moro foi capaz de detetar a oportunidade de atrair para apoiar o governo da DC o Partido Comunista que, com Enrico Berlinguer à sua frente, empunhava a visão marxista mais moderna da Europa com o chamado eurocomunismo. Esta aliança inédita com os comunistas - chamada na época, não sem razão, de “compromisso histórico” -, no entanto, mesmo que não incluísse cargos no governo para o PC, incomodou demais muita gente poderosa, dos aliados norte-americanos ao Papa Paulo VI (Toni Servillo), um amigo íntimo de Moro.
Se em Bom Dia, Noite, Bellocchio ficava junto ao Moro sequestrado pelas Brigadas Vermelhas, na série ele desaparece por longo tempo da tela depois de seu sequestro, em março de 1978, à luz do dia, uma das ações mais espetaculares dos brigadistas. E, como no filme de 2003, o diretor retrata, numa sequência, um Moro sobrevivente ao sequestro que, ainda mais aqui, é a representação deste fantasma que não descansa e retorna para lembrar o quanto tantos aspectos daquele trágico episódio não foram devidamente compreendidos, nem assimilados pelos italianos.
Exumêmo-lo, pois, pelo brilhantismo de Bellocchio, capaz de somar tantos elementos de reflexão sobre os desastres da negociação pela libertação do refém, a influência nefasta do adido norte-americano (Tim Dalsh) sobre o bipolar ministro do interior Francesco Cossiga (o esplêndido Fausto Russo Alesi), as omissões da DC e do primeiro-ministro Giulio Andreotti (Fabrizio Contri) e a dor declarada de sua família, através da manifestação de sua esposa, Eleonora Moro (Margherita Buy).
Na série, dividida em duas partes, Bellocchio conduz como maestro uma polifonia de vozes que permitem compreender muito melhor os fatos, sem deixar de colocar as posições de um diretor maduro e de formação marxista que, octagenário, parece no auge de sua forma artística. Por tudo isso e muito mais, um programa que merece o adjetivo “imperdível”.
