03/07/2026
Drama

Fechar os olhos

Quando protagonizava um filme, o ator Julio Arenas desaparece sem deixar vestígios, provocando a interrupção da obra e da carreira do cineasta, Miguel Garay. Décadas depois, um programa de TV volta ao caso, reabrindo as feridas sobre o episódio.

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O espanhol Víctor Erice é o que se pode chamar de um cineasta bissexto. Aos 84 anos, sua filmografia acumula poucos títulos, mas certamente são todos preciosos - como O Espírito da Colmeia (1973) e O Sol do Marmelo (1992). Seu novo filme, Fechar os Olhos, que teve sua première em Cannes 2023 - e mereceu protestos do diretor por não ter sido selecionado em competição - é, mais uma vez, uma obra de requinte narrativo e visual, com roteiro assinado por ele em parceria com Michel Gaztambide.

Num enredo que se enovela no próprio mistério, acompanha-se a história do desaparecimento do ator Julio Arenas (José Coronado) - que, décadas atrás, protagonizava um filme justamente sobre um homem que procurava a filha chinesa perdida de outro (Josep Maria Pou). A trama é introduzida sem preâmbulos justamente por um trecho do filme interrompido pelo sumiço de seu protagonista, e que acabou também com a carreira do cineasta e amigo de Julio, Miguel Garay (Manolo Solo).

A história do ator sumido, cujo corpo nunca foi encontrado, nem nenhuma outra notícia sobre ele, é o pretexto para a criação de uma narrativa cujas espirais se ampliam a partir do momento em que o assunto vira tema de um programa de TV, que justamente investiga casos não solucionados. 

A volta à tona do tema do amigo perdido perturba intensamente Garay, que leva vida recolhida e frugal no interior da Espanha. Inúmeros encontros e incidentes deflagram novos rumos à procura de respostas para o desaparecimento de Julio, que tem uma filha, Ana (Ana Torrent, a inesquecível garotinha de O Espírito da Colmeia e Cría Cuervos). 

Um capítulo intermediário também liga Julio, Miguel e a argentina Lola (Soledad Villamil), explorando uma senda que remete à memória, um dos grandes temas do enredo. 

Como quem lança pedras à superfície de um lago tranquilo, Erice cria diversos círculos em torno de cada personagem, desatando caminhos possíveis que, por sua vez, deixam muito clara sua conexão com a elaboração e as elipses do próprio cinema. Assim, não há que procurar respostas definitivas e sim se deixar levar, até a preciosa sequência final que sugere uma explicação para o título enigmático. Cada um, porém, terá seu olhar sobre tudo isso - e esse é justamente o tema que o filme quer desbravar.

 

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