Escrito e dirigido pela jovem cineasta francesa Emma Benestan, Animale é uma fábula sombria sobre uma jovem lidando com um trauma. Exibido no encerramento da Semana da Crítica, do Festival de Cannes, o filme combina realismo e fantasia para retratar uma jovem pegando a masculinidade tóxica, digamos, pelos chifres para lidar com um trauma.
Nejma (Oulaya Amamra) tem 22 anos e trabalha num rancho em Camargue, na França, onde touros são criados com o intuito de participar de touradas e afins, ou seja, são criados para ter um comportamento violento. Geralmente, são os rapazes que cuidam dos animais, mostrando, tanto eles quanto os touros, uma força extrema. A presença de uma mulher nesse ambiente causa estranhamento.
A mãe de Nejma também se preocupa com a filha. O receio maior é de a jovem ser atingida na região do ventre e não poder ter filhos. Deveria ser uma preocupação, digamos, secundária dado o cenário onde a jovem trabalha. Ela, por sua vez, é forte, mas também mostra fragilidade, uma dicotomia que a atriz Amamra trabalha muito bem.
O filme funciona melhor nas cenas em que as emoções, os sentimentos e mesmo a ação não é verbalizada, quando os personagens apenas navegam pela história sob a potente fotografia de Ruben Impens (Titane), cuja maneira de filmar os touros é, ao mesmo tempo, bonita e assustadora.
Nejma é uma personagem que não pode fracassar em seu trabalho, pois a cobrança será ainda maior do que se fosse um de seus colegas. Ela vive sob a constante pressão por ser uma mulher nessa profissão dominada por homens. A personagem tenta se encaixar nas regras desse ambiente, e isso prova ser um erro, na verdade.
Benestan tem um olhar carinhoso pela personagem e também pelo seu trabalho. Ao contrário das touradas espanholas, as francesas não envolvem a morte do touro. Talvez esse olhar seja encantado demais para perceber que, em certa altura, o filme caminha para a obviedade, mas, ainda assim, é um bom trabalho, especialmente pela presença de Amamra.
