18/07/2026
Documentário

O contato

Nativos brasileiros de três grupos distintos contam histórias de seus ancestrais e apresentam o cotidiano de suas tribos nesse documentário filmado no alto do Rio Negro (AM). Nos cinemas.

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Diretor de filmes como Soy Cuba, O mamute siberiano, sobre o clássico de Mikhail Kalatozov, o cineasta Vicente Ferraz volta sua câmera a um assunto sempre urgente no Brasil: a questão indígena. Em O Contato, a ação se situa no Alto Rio Negro, no Amazonas, um território indígena brasileiro, no município de São Gabriel da Cachoeira, habitado por comunidades de 23 etnias originárias e contando com 19 línguas diferentes. O filme acompanha o cotidiano de três famílias dali.

De forma até meditativa, o documentário retrata a vida numa região de diversidade cultural e beleza natural – ambas ameaçadas pela dita civilização. O que vêm à tona são histórias de contatos conflituosos com os brancos e tentativas de aculturamento, cujos resultados, como bem sabemos, sempre são desastrosos.

O documentário se integra às vidas dessas pessoas, travessias de barco, a comunhão com a natureza, a sobrevivência em meio à negligência governamental e os riscos impostos pelos exploradores. Cerimônias são filmadas com curiosidade e respeito, iluminando uma cultura local que, não poucas vezes, é marcada pelo sincretismo. São impressionantes, particularmente, as cenas envolvendo ritos e cantos católicos, por exemplo.

Ao colocar esses membros dos povos originários falando em primeira pessoa, com liberdade para lembrar e comentar suas histórias, Ferraz nos dá a rara chance de um relato direto. Ao mesmo tempo, vemos também o presente em transformação, com casamentos entre pessoas de povos distintos.

O Contato é um filme que se constrói numa cadência própria, um ritmo de quem atravessa o rio num barco, sem a pressa pautada pelo capital. Ao mesmo tempo, é um retrato melancólico de um Brasil vulnerável e que deveria ser mais ouvido. O documentário, em sua grande sagacidade, ouve o que eles têm dizer e, quem sabe, consigamos extrair algum aprendizado disso tudo.

O filme é dedicado ao indigenista Bruno Pereira, que colaborou na realização do documentário e foi assassinado junto com o jornalista britânico Don Philips, em junho de 2022, durante uma viagem pelo Vale do Javari, no extremo-oeste do Amazonas. Essa triste nota, antes dos créditos finais, ressalta a importância do seu trabalho, assim como a questão indígena, um assunto que precisa ser encarado de frente, debatido e resolvido urgentemente no Brasil.

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