03/07/2026
Drama

Entrelinhas

Em 1970, a jovem curitibana Ana Beatriz Fortes acabara de entrar na universidade e se preparava para fazer um estágio numa firma. Deixada na porta da empresa pelos pais, ela é detida e levada clandestinamente por policiais do DOPS. Mantida presa, é submetida a torturas para que delate companheiros do movimento estudantil.

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Vencedor de cinco prêmios no Cine PE 2023 - incluindo melhor direção para Guto Pasko -, o drama Entrelinhas resgata a história real de sua jovem protagonista, Ana Beatriz Fortes (Gabriela Freire), jogada num turbilhão de horrores em um dos períodos mais duros da ditadura brasileira, em 1970, no governo Médici. 

O filme de Pasko opta por um tom realista, com algumas sequências fortes de tortura e violência. Infelizmente, todas calcadas na realidade, como lembrado pela própria Ana Beatriz, hoje com 72 anos, ao lado da atriz que a interpretava, no debate daquele festival. Gabriela, por sua vez, revelou que ter conhecido a personagem real lhe permitiu “captar sua força”.

 

Ana Beatriz tinha apenas 18 anos em 1970 e acabara de entrar na universidade, em Curitiba. Deveria ter iniciado um estágio mas, no seu primeiro dia, depois de deixada na firma pelos pais, foi presa por policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Ana tinha uma irmã, Elisabeth (Laís Cristina), já presa por envolvimento com o movimento estudantil, que fazia oposição ao regime militar. Sob acusação de envolvimento com o movimento, que em alguns setores teria ligação com a luta armada, Ana foi presa também.

O clima realista do filme transmite com clareza o clima de pesadelo vivido pela jovem, aprisionada, em isolamento, sem probabilidade de qualquer contato com a família, submetida a torturas, assim como outros jovens que conhecia. O filme é eficiente em retratar esse clima da delegacia, que funciona como uma repartição que invoca toda aparência de normalidade, encobrindo os bastidores sinistros do que ocorria em seus bastidores, num permanente abuso autoritário e flerte com a morte. 

A produção do filme teve um processo longo e cuidadoso. Segundo o diretor Guto Pasko, foram 8 meses de casting, em que passaram 2.100 atores, sendo 181 atrizes testadas só para o papel da protagonista, que é uma atriz maranhense. O roteiro, que teve vários tratamentos, passou também por um laboratório na Fundação Carolina, na Espanha, com tutores como o cineasta chileno Sebastián Claro, que é inclusive creditado como diretor-assistente. Fora isso, o filme também foi contemplado com uma residência artística do Ministério da Cultura e do Esporte da Espanha.


Entrelinhas
junta-se a um esforço de recuperar as memórias mais sombrias da ditadura militar, somando-se ao já lançado O Mensageiro, de Lucia Murat, e a, de Rafael Conde, que tem estreia prevista nos cinemas para 29 de agosto. Cada um com seu estilo mas todos muito próximos em sua intenção de rediscutir um período de memórias sufocadas e crimes impunes.

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