03/07/2026
Drama

Saudade fez morada aqui dentro

Bruno é um garoto de 15 anos, morador de Poço de Fora, interior da Bahia, com a mãe, Wilma, e o irmão menor, Rony. Depois de vários exames, ele descobre que está ficando irremediavelmente cego. Fica desesperado mas várias pessoas à sua volta se mobilizam para que ele encontre novos caminhos. Nos cinemas.

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Multi premiado em festivais como a Mostra de S. Paulo e o Festival Aruanda 2023, o longa baiano Saudade Fez Morada Aqui Dentro, de Haroldo Borges, constrói com muita delicadeza o percurso do adolescente Bruno (Bruno Jeferson), de 15 anos, que ao iniciar sua jornada rumo à descoberta do sexo e a maturidade descobre que vai ficar cego. 

O que há de mais notável aqui é não só a naturalidade de ótimos jovens protagonistas - aos quais se soma o irmão de Bruno, Rony (Ronnaldy Gomes), e as garotas Ângela (Ângela Maria) e Terena (Terena França) - como a maestria que se obtém num retrato de ambiente, numa pequena cidade do interior baiano, Poço de Fora, de uma adolescência que vibra em cada pequena situação, em cada fala. Contando-se aí, como tempero delicioso à parte, a colorida regionalidade baiana das expressões, um retrato da diversidade riquíssima do Brasil. 

Numa palavra, o filme é um encanto, envolvendo os espectadores em episódios repletos de humor sem abrir mão de contemplar a dramaticidade do dilema original de Bruno - com o qual ele, o irmão, os amigos e também sua mãe (Wilma Macedo) terão que lidar. Destaca-se também a figura de um professor, Vinicius, que coloca à disposição seus conhecimentos sobre deficiência visual, tornando-se um contraponto a uma estrutura escolar um tanto burocratizada, que se mostra resistente a incorporar mudanças e desafios. 

O roteiro é assinado por Haroldo Borges e pela talentosa Paula Gomes, diretora do premiado documentário Jonas e o Circo sem Lona (2015), exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã e no Festival É Tudo Verdade, entre outros, e que também focaliza com muita propriedade o mundo juvenil - em que as paixões incipientes tornam-se a medida pela qual se mede o mundo, cujas fronteiras começam a crescer, encontrando aí um eco universal.

Por essas e outras, o filme às vezes evoca obras como o genial Os Incompreendidos, de François Truffaut, numa versão sertão baiano, longe do mar, investida de um afeto que transpira a cada fotograma como uma possibilidade de luz, mesmo diante da melancolia. 

Em destaque, como um dos muitos subtemas de uma história apenas aparentemente simples, há uma figura forte da mãe - e esta maternidade se afirma como um dos reflexos de um país onde os pais tantas vezes desaparecem da vida e do destino dos filhos.

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