De tempos em tempos, o cinema francês descobre um novo rosto, um adolescente que, por assim dizer, cresce diante das câmeras ao longo do tempo, retratando na tela períodos essenciais da vida de todas as pessoas. Foi assim com o inesquecível Jean-Pierre Léaud, ator-fetiche desde criança de François Truffaut em Os Incompreendidos, de onde seguiu para atuar com Jean-Luc Godard, Bertrand Blier, Agnès Varda e outros.
Agora, um processo semelhante está ocorrendo com Paul Kircher, filho dos atores Irène Jacob e Jérôme Kircher, vencedor do prêmio Marcello Mastroianni no mais recente Festival de Veneza - um prêmio para jovens revelações, pela atuação no drama Leurs Enfants après Eux, de Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma. Kircher é o protagonista deste Inverno em Paris, um relato que parece profundamente autobiográfico do diretor Christophe Honoré, que faz uma ponta no filme como o pai do rapaz, Claude Ronis.
O jovem ator interpreta Lucas, o filho caçula do casal formado por Claude e Isabelle (Juliette Binoche), que sofre uma perda trágica com a morte do pai. O irmão mais velho, Quentin (Vincent Lacoste), mora em Paris e já tem sua vida encaminhada. A dor da perda da referência paterna recai, portanto, com todo o seu peso sobre Lucas, vivendo a fase crucial em que está prestes a concluir o ensino médio e deve decidir o que fará de seu futuro.
O filme explora em detalhes essa lenta e atribulada reacomodação que Lucas vai ter que promover, causada por decisões que cabem a ele mesmo, mais ninguém. Honoré é bastante competente para retratar as contradições e estados de alma desse quase menino confrontado pela necessidade de escolhas para as quais ele não está ainda preparado e cuja fragilidade Paul Kircher consegue expressar de maneira bem natural, ainda mais com um rosto e um físico de menino (ele tinha 20 anos na época do filme, hoje tem 22).
Toda essa inexperiência explode no período de alguns dias que Lucas vai passar em Paris, na casa do irmão, expondo-o a um ambiente muito maior e mais cheio de atrações e riscos do que sua cidadezinha natal. É uma semana que vale uma vida, pelas novas informações, encontros, vivências e emoções que aceleram a pulsação de Lucas, transformando o que já era confuso num turbilhão.
Com um olhar sensível e complexo sobre as incertezas da adolescência, Honoré compõe em Inverno em Paris um painel cheio de camadas, em que entram experiências com sexo e drogas que colocam Lucas em máxima voltagem. É notável que o filme desenvolva, ainda que não com muita ênfase, o aspecto da perda para a mãe, tornando as cenas com Binoche sempre de uma alta volatilidade emotiva - e deixando o desejo de que ela tivesse mais espaço na trama.
Mas este é, assumidamente, um retrato de uma adolescência masculina, em que entram como contraponto o irmão impaciente e um amigo dele, Lilio (Erwan Kepoa Falé), como uma presença carinhosa dentro do esforço de compreensão da própria identidade que Lucas, um ser um pouco solitário, terá que fazer por si mesmo.
