Um dos marcos da Retomada e título de expressão do gênero “nordestern”, Corisco & Dadá volta ao cartaz para repor em circulação o terceiro longa do cineasta cearense Rosemberg Cariry. Com roteiro extensamente pesquisado em livros, teses e entrevistas, o filme compõe um painel alentado sobre as contradições do cangaço, filtradas pela história de um casal atravessado por ele.
Numa interpretação premiada no Festival de Gramado de 1996, Chico Díaz vive Corisco, o Diabo Louro, numa voltagem na medida para dar conta da fúria e também das nuances do cangaceiro que assombrou os sertões ao lado do lendário Lampião, sem perder de vista a humanidade complexa do personagem. Em outra interpretação premiada, esta no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Dira Paes dá carne e sangue a esta Sérgia Ribeiro da Silva que virou Dadá, uma das mulheres mais marcantes entre as cangaceiras, num ambiente francamente hostil às mulheres.
Apesar de recuperar a história através de uma narradora (Regina Dourado), que incorpora ao filme um tom de cordel que lhe cai muito bem, não se heroiciza a figura de seus protagonistas. Evidencia-se, assim, a crueldade que marcava o comportamento do impiedoso Corisco em cenas fortes como o rapto e estupro da ainda menina Dadá (interpretada então por Maira Cariry) e a brutalidade no enfrentamento com as volantes, as tropas de soldados que o combatiam. Mas também não se deixa de mostrar como o próprio Corisco depois se esforçou para ensinar Dadá a ler e a atirar, contribuindo para que se tornasse a mulher altiva e independente que carecia ser numa vida que ela não escolheu - foi sequestrada como vingança dos cangaceiros contra o pai dela. Sem opção, adaptou-se a esse mundo e criou um laço inclusive de amor e lealdade por Corisco, a quem sobreviveu.
A crítica ao machismo estrutural que domina esses tempos (anos 1930) é apenas uma das leituras que se pode fazer a partir deste belo filme, magnificamente fotografado (Ronaldo Nunes) e montado (Severino Dadá) para compor também a crônica de uma vida instável, em que os cangaceiros, homens vindos da pobreza, se entregam a esse cotidiano violento numa geografia inóspita, caçados como bichos e destinados a não manter sua prole - a própria Dadá vive a dor de perder um filho após o outro na correria desse destino sem possibilidade de descanso ou redenção.
