03/07/2026
Drama

Lubo

Em 1939, Lubo e sua família, que são ciganos Yenish, vivem de sua arte circense nas ruas do cantão Grigioni. Ele é convocado para entrar no exército e vai servir na fronteira. Nesse momento, seus filhos são retirados da guarda da família, por uma determinação governamental, assim como diversas outras crianças ciganas. A partir daí, ele fará de tudo para tentar reencontrá-los, recorrendo inclusive ao crime. Na Reserva Imovision.

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Há pelo menos duas boas razões para o espectador dispor-se a atravessar as três horas de duração do drama Lubo, do diretor italiano Giorgio Diritti. A primeira delas é o talento de seu protagonista, o ator alemão Franz Rogowski, que desdobra as muitas nuances de um personagem trágico, ambíguo e muito humano, na justa medida para dar conta de sua complexidade. A segunda é a própria importância em colocar em evidência fatos não muito conhecidos, a respeito da adesão da Suíça, historicamente proclamada como a terra da neutralidade, a teses eugênicas que embasaram abusos a suas populações ciganas por muitas décadas, não ficando muito a dever a nazistas e fascistas além de suas fronteiras.

Em 1939, no cantão Grigioni, Lubo Moser (Franz Rogowski) é o chefe de uma pequena família de artistas ciganos Yenish, que ganha sua vida exibindo-se nas ruas. O filme se abre com um curioso número circense em que Lubo está disfarçado como um urso, manipulado por outro artista, emergindo depois de “morto” o animal de seu ventre, vestido de mulher e dançando para a plateia. É uma sequência muito expressiva para mostrar esta face de Lubo, uma pessoa simples e apegado à sua mulher e três filhos pequenos.

Quando a pequena carroça da família é abordada por militares e Lubo é convocado para o exército, a vida dos Moser tem uma guinada radical. Separado dos seus, ele é colocado num posto de fronteira coberto de neve, onde nada acontece. Enquanto isso, o governo, através de organizações como a Pró Juventude, tira suas crianças da família, como fazia com milhares delas, entregando-as para adoção ou educando-as em organizações espalhadas pelo país. 

Quando tem conhecimento disto, Lubo transforma a meta de sua vida em tentar recuperar os filhos. Para isso, envolve-se numa operação arriscada, proposta por Bruno Reiter (Joel Basman), um austríaco que trazia mercadorias escondidas para judeus perseguidos pelos nazistas. A partir desse encontro, Lubo assume uma outra vida, roubando a identidade, o dinheiro e as mercadorias de Reiter, enquanto tenta descobrir o paradeiro dos filhos.

Essa entrada de Lubo/Bruno na alta sociedade suíça é um modo eficaz de retratar a mentalidade dessa elite europeia que se diz cristã enquanto promove uma eugenização de seu ambiente, não vendo crime e sim encontrando justificativas para o sequestro das crianças ciganas de seus pais, cometendo outra violência com a separação de irmãos. Pessoas como a socialite Elsa (Noémi Besedes) ou o casal formado pelo banqueiro Karl (Philippe Garber) e sua mulher, Klara (Cecilia Steiner), que acreditam firmemente que as crianças ciganas devem ser arrancadas de seu meio e ter sua identidade apagada em proveito de uma nova cultura. 

Apesar dos meios financeiros de que dispõe, Lubo só encontra obstáculos para reaver sua família. É quando, com os anos que se passam, envolve-se com Margherita (Valentina Bellè), camareira de um hotel em que ele frequentemente se hospeda. Lubo parece estar tendo uma nova chance quando seu passado vem ao seu encontro com a aparição de Moster (Christoph Gaugler). 

A longa duração do filme permite que o diretor, corroteirista com Fredo Valla, a partir de um romance de Mario Cavatore, explore diversos incidentes ao longo da trajetória acidentada de Lubo, que tem sua vida roubada mais de uma vez, embora não seja tratado como um herói impoluto. Mais chocantes do que algumas escolhas de Lubo talvez sejam as informações dos letreiros finais, dando conta de que somente em 1972 veio a público a dimensão do crime cometido por décadas contra as populações ciganas. Em 1987, tiveram início compensações financeiras, já que houve também casos de mortes e muitos abusos.

 

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