Dirigido pelo cineasta e artista plástico Cao Guimarães, Santino é um documentário de delicada beleza visual, numa fotografia pálida, assinada pelo próprio diretor e pelo produtor do filme, Beto Magalhães. Tal como seus longas Alma do Osso e Andarilho, o diretor mergulha no sertão mineiro, um espaço à la Guimarães Rosa, marcado pela paisagem e por figuras peculiares.
Quem dá nome ao filme é Santino Lopes Araújo, um homem, que, na primeira cena, aparece cuidando de um cemitério e contando um pouco da história do lugar. Logo entra em questões metafísicas, quando perguntado se gostaria de ser enterrado ali. Esse começo já dá o tom do filme todo, um diálogo entre o histórico material e o espiritual, uma característica tão forte nesse personagem.
Guimarães dá chance, primeiramente, a Santino de falar suas histórias, sua cosmovisão - que inclui a ideia de que este planeta é uma escola, para onde outros 12 planetas enviam pessoas para estudar. Em meio a essas histórias, ele toca também em questões mais terrenas, como os falsos pastores e como o dinheiro acabou entrando nas religiões.
É muito fácil entender como Guimarães se deixa levar pela fala de Santino. Ele é carismático, conta suas histórias sem titubear, com segurança e riqueza de detalhes. Às vezes, é um pouco confuso, ele mesmo se contradiz, nas nem por isso se torna menos sedutor em seus causos extraterrenos.
O contraponto a isso está em Maria Cristina, mulher de Santino e muito mais pé no chão do que ele. Ela, por exemplo, não deixa que as duas filhas adolescentes consumam as plantas que o pai garante curar diversos males.
Não há nada de uma religião institucionalizada em Santino. Ele combina crenças, misticismos e invenções para criar sua própria narrativa espiritual, que comunga também do mundo material. Também nesse sentido, ele é uma figura fascinante. Na televisão, ele assiste a um filme que fala sobre a criação do mundo. Seria um programa ligado à sua visão do mundo? Não, é o filme Lanterna Verde, mais uma vez nos lembrando que a linha entre o fantástico e o real é bastante tênue.
