18/07/2026

Seis pessoas que cumprem pena por estelionato se abrem diante da câmera: contam suas trajetórias de vida, seus golpes, e com o poder da palavra e da performance, transitam entre verdades e mentiras.

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O que leva uma pessoa comum a se envolver com estelionato, mais conhecido popularmente como 171? É essa a pergunta da qual parte o novo documentário de Rodrigo Siqueira, 171, para investigar uma dinâmica de negociação marcada pela mentira.

São seis figuras variadas, desde um ator a um padre, cujas vidas, em algum momento, foram marcadas pela aplicação de golpes. Os motivos que levam a isso são os mais variados, às vezes, nem ficam claros. Apenas acontece. Sem cair em julgamentos morais, o documentário resgata essas histórias de vida e a busca pela redenção após o(s) golpe(s).

Se no princípio é isso que o filme mostra, depois de um tempo surge outro dispositivo, como em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho - a quem o longa é dedicado. Em meio às histórias de corrupção, há verdades e mentiras, fatos e ficções. E o sexteto de entrevistados – todos encarcerados por motivos diversos, mas enquadrados como 171 – atua partindo do poder da palavra, a principal ferramenta de um estelionatário.

O documentário 171 traz a sintonia entre a forma e o conteúdo. Seus personagens contando histórias reais ou não – jamais saberemos – “aplicam” golpes no público. E assim o filme prova sua tese: somos todos passíveis de nos tornarmos vítimas.

O ato de narrar sempre foi uma questão central nos documentários do diretor. Em Terra Deu, Terra Come, intercalam-se memórias e ficções na figura do garimpeiro Pedro de Almeida, um dos últimos conhecedores dos vissungos, cantigas em dialeto cantadas durante os rituais fúnebres do interior de Minas Gerais. Em Orestes, o cineasta busca uma narrativa ainda mais antiga, a peça grega de Ésquilo, na qual Orestes mata o próprio pai, e o filme faz o seu julgamento. Mas, a partir disso, o documentário investigava a tortura no Brasil na época da ditadura civil-militar.

Aqui, ao colocar as narrativas mentirosas ao centro, o filme vai, como tantas obras, questionar um tema importante do presente: as fake news, que, como narrativas estelionatárias, são sedutoras. Para que funcionem, assim como os 171, é preciso que incorporem uma dose de verdade, embalada pela mentira, que é o que mais importa. “O poder da palavra é mais forte do que o poder da imagem”, diz um entrevistado. Essa é a tese que o filme tenta provar – e consegue – o tempo todo.

Leia entrevista com o diretor Rodrigo Siqueira

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