03/07/2026
Drama

Tesouro

Pai e filho distanciados, Edek e Ruth Rothwax decidem viajar dos EUA à Polônia, onde ele nasceu e foi sobrevivente de um campo de extermínio. Lá chegando, fica claro que as expectativas de cada um com esse reencontro com o passado e as memórias é muito diferente.

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Um conflito de gerações sobre um fundo histórico está no centro de Tesouro. O filme da diretora alemã Julia von Heinz adapta o livro Too Many Men, da autora australiana Lily Brett, acompanhando a viagem de um pai e uma filha de origem judaica à Polônia, cenário do calvário vivido pelo pai no campo de extermínio Auschwitz-Birkenau. 

No filme, ambientado em 1991, eles são Edek Rothwax (Stephen Fry) e Ruth (Lena Dunham), pai e filha distantes que se unem para essa viagem que tem significado muito diferente para os dois. Ela é jornalista e mora em Nova York e está interessada em conhecer melhor esse passado que ela não viveu. Ele, que não tem tanta vontade de reencontrar os lugares onde experienciou seus piores pesadelos, procura, na verdade, reconectar-se com a filha.

Por conta dessa dissonância, Edek tenta, desde o começo, sabotar o plano de viagem, tão minuciosamente elaborado por Ruth. Para começar, Edek boicota o plano dela de viajarem de trem, cujos bilhetes ela já comprou, arranjando um motorista de táxi, Stefan (Zbigniew Zamachowski, de A Igualdade é Branca) para conduzi-los. Não raro, mudando completamente o roteiro do trajeto. 

A primeira parada é Lodz, lugar de nascimento de Edek. A visão dos locais de sua infância, por sua vez, também altera a atitude dele, de pretenso desinteresse por esse passado que supostamente ele quis esquecer. Lá ele reencontra a fábrica que pertenceu à sua família e também o apartamento onde moravam os Rothwax em 1940. Por insistência de Ruth, eles acabam entrando no apartamento, ocupado por uma grande família empobrecida, que permite sua visita a troco de dinheiro. Nesse capítulo, o filme desenvolve seu segmento mais polêmico, já que é evidentemente muito negativa a imagem que projeta dos poloneses - simbolizados por essa família, que ocupou o apartamento arrancado dos judeus, levados aos campos de extermínio, apropriando-se inclusive de objetos pessoais, como louças e roupas que Edek não pode deixar de reconhecer.

Diante dessa constatação, os dois divergem também radicalmente. Edek não quer mais do que sair desse cenário de lembranças tristes, enquanto Ruth pretende resgatar quantos objetos puder de sua família, ainda que à custa de dinheiro. Evidentemente, o modo como ambos se relacionam com essas memórias é muito diverso. Para Ruth, essa viagem parece um modo de preencher alguns buracos emocionais, inclusive a morte da mãe. Edek, por sua vez, está mais focado na vida aqui e agora, o que também é uma forma de negação de um sofrimento incomparável que viveu.

A visita ao campo de Auschwitz-Birkenau, que em princípio Edek recusava, acaba sendo uma das sequências que coloca os fatos numa perspectiva mais realista. Afinal, não há como deixar de notar o tamanho dessa máquina de matar dos nazistas, sua fria e sistemática eficiência e crueldade. Ter sobrevivido a isso, como é o caso de Edek, é uma experiência sem paralelo, difícil mesmo de avaliar totalmente.

Algumas escolhas são problemáticas no desenrolar da história, como uma certa insistência irritante na incompreensão mútua de pai e filha - como o hábito dele de chamá-la “jaquinha” (uma tradução esdrúxula para o termo “pumpkin”). Da parte dela, um certo egoísmo de não enxergar que a vitalidade dele tem um sentido profundo de sobrevivência, que contrasta com a mania de organização dela, que procura enfiar tudo dentro de uma caixinha conceitual e perde a percepção do todo, do vivido no presente.

Também não é bem encaixada na narrativa a revelação dele do tesouro do título - que compreende documentos e fotografias ocultos, capazes de preencher algumas das lacunas que ela procura. Mas o tom geral da direção é um pouco travado, comprometido talvez com a manutenção de alguma fidelidade ao livro original, que reproduz experiências da própria autora com o pai, um sobrevivente do Holocausto.

 

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