O Intruso, nova-velha provocação do cineasta canadense Bruce LaBruce, abre com o áudio do infame discurso Rios de Sangue proferido pelo político inglês Enoch Powell, num encontro em abril de 1968, no Centro de Política Conservadora, em Birmingham. No texto, ele critica, entre outras coisas, o aumento do número de imigrantes, especialmente oriundos da New Commonwealth – formado por ex-colônias britânicas. O que se ouve é impressionante e assustador, especialmente por ressoar tão fortemente com o presente, principalmente com os EUA de 2025.
LaBruce, que apresentou o filme pela primeira vez numa mostra paralela do Festival de Berlim de 2024, não poderia imaginar que a maneira como começa seu filme iria ao encontro com o governo atual de Trump, mas a xenofobia é um dos grandes males do nosso tempo, e, independente de quem seja o governo e de onde seja, esse é um elemento forte. Enquanto isso, imagens de uma Inglaterra degradada são mostradas, até que o filme se fixa num homem que vive numa barraca às margens do Tâmisa, e ele encontra uma mala. Ao abri-la, dela sai um homem negro e nu, o tal intruso do título, interpretado pelo ator e performer Bishop Black.
Diversas malas como essa serão mostradas em locais diferentes em Londres, até que um desses intrusos se instala na casa de uma família abastada. Inspirado em Teorema, de Pier Paolo Pasolini, o filme mostra como esse intruso sem nome se relaciona sexualmente com cada membro dessa família.
LaBruce é conhecido por seus filmes explícitos que visam o choque, e podem funcionar, ou ter funcionado, em algum momento, mas aqui é o choque pelo simples choque, sem profundidade ou discussões. De estupro com um pênis de borracha em forma de crucifixo a incesto, o cineasta sabe exatamente os botões que está apertando para causar polêmicas e ficar em evidência.
No fim, O Intruso parece apenas isso, um acúmulo de pequenos escândalos explícitos que não têm muito a dizer para e sobre o mundo em que vivemos. Em 1968, Pasolini fez a mesma coisa, e fez melhor. Letreiros piscam na tela com dizeres como “Valores Familiares” enquanto filha (Ray Filar) e pai (Macklin Kowal) se atracam sexualmente, observados pelo Intruso.
Tomando o filme como uma espécie de manifesto, LaBruce escreve no site do longa, em grandes letras garrafais que “se você vai fazer um filme sobre revolução sexual, é melhor colocar seu marxismo onde está sua boca e fazer o filme sexualmente explícito, ou melhor ainda, pornográfico, priorizando a práxis sobre a teoria". Se isso é sobre sobrepor a práxis sobre a teoria, aparentemente, os agitprops do mundo ao longo dos séculos nunca estiveram tão errados.
