Para os personagens de É Tempo de Amar, mais cedo ou mais tarde, o passado baterá à porta e será impossível ignorar. Dirigido pela francesa Katell Quillévéré (dos ótimos Suzanne e Coração e Alma), o novo filme é um melodrama com personagens e performances marcantes, mas um ritmo irregular que compromete sua narrativa.
O filme começa com imagens documentais da Liberação Francesa, no fim da Segunda Guerra, quando as mulheres consideradas colaboradoras dos nazistas foram castigadas e seus cabelos raspados. Entre essas mulheres, está a protagonista Madeleine (Anaïs Demoustier), no lance que une realidade e ficção. Ao fugir da multidão, careca, ela se esconde num celeiro, onde tenta apagar a suástica que foi pintada em sua barriga de grávida.
Anos mais tarde, ela se mudou para a região da Bretanha, onde trabalha como garçonete e cria seu filho pequeno, Daniel (Hélios Karyo), a quem disse que o pai morreu na guerra. Ela tem uma relação complicada com o filho, pois, por mais que o ame, ainda assim o culpa pelo seu destino de exilada e solitária.
Nesse contexto, ela conhece François (Vincent Lacoste), um jovem estudante, também solitário, com pouco contato com sua família. O romance acontece, eles se casam, embora ele, aparentemente, dê vários indícios de que a relação deles não seja exatamente como ela imagina. E, quando se casam, na noite de núpcias, ao tentar consumar o casamento, ele passa mal e vomita.
Vários acontecimentos os levam a mudar-se para perto de uma base militar estadunidense, onde vivem uma relação afetuosa e respeitosa, embora nunca como marido e mulher. Ali eles conhecem um soldado, Jimmy (Morgan Bailey), pelo qual os dois se interessam, culminando numa cena bastante estranha, que parece destoar de todo o filme. Assim, o personagem some de cena, da mesma forma que entrou – embora seja dada a ele uma ênfase maior no cartaz do filme.
A partir daí, o tempo passa novamente, e François e Madeleine, inesperadamente, tiveram uma filha, e o roteiro de Quillévéré e Gilles Taurand faz com que tudo aconteça muito rápido. O protagonista tornou-se um professor universitário que tem encontros sexuais com um aluno, e sua mulher cuida do cabaré, de sua propriedade.
A narrativa se apressa, tenta dar conta de muitos anos e muitos acontecimentos em pouco tempo de filme. Demoustier e Lacoste são “envelhecidos” com perucas e maquiagem, mas os personagens, a partir desse momento, já não tem mais a densidade da primeira parte de É tempo de amar. Eles enfrentam seus passados, em reviravoltas previsíveis, e tentam viver o presente. Toda habilidade que Quillévéré mostrara em seus filmes anteriores se esvai, e o que fica é uma pálida sombra das pessoas que Madeleine e François poderiam ser.
