02/07/2026
Drama Biografia

Meu Nome é Maria

Maria Schneider era uma jovem, filha de mãe solteira, Marie-Christine, e de um ator, Daniel Gélin, que jamais se interessou realmente por ela. Ela termina por ter sua grande chance como atriz aos 19 anos, convidada por Bernardo Bertolucci a contracenar com Marlon Brando em "O Último Tango em Paris" (1972). Uma cena de violência no filme marcou para sempre a vida da atriz. Na Reserva Imovision.

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Muito antes que houvesse o MeToo, houve Maria Schneider. A atriz francesa que, aos 19 anos, ganhou fama mundial e também um trauma permanente ao estrelar O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, em 1972, não teve, então, escuta para proclamar o abuso que sofreu no set - embora ela tenha sempre lutado por isso. Desde então, muita coisa mudou, mas Maria não teve tempo de aproveitar, embora tenha sido pioneira na denúncia.

Dirigido por Jessica Palud, Meu Nome é Maria toma assumidamente o partido da atriz (vivida com intensidade pela atriz romena Anamaria Vartolomei). O enredo parte de um livro biográfico escrito pela prima da atriz, Vanessa Schneider, e coloca no centro essa experiência definidora de todo o futuro de Maria que foi a filmagem com Brando e Bertolucci.

Maria tinha apenas 19 anos na época, era uma atriz inexperiente e certamente não tinha todos os recursos para enfrentar o que viria depois. Não havia como não ficar fascinada com a possibilidade de contracenar com aquele que era, na época, um dos maiores atores do mundo, Marlon Brando (Matt Dillon) e ser dirigida por um diretor de não menor calibre, o italiano Bernardo Bertolucci (Giuseppe Maggio). Era a chance de sua vida e ela a agarrou com toda entrega de que era capaz. Dividiu as cenas com Brando mantendo a fluência e espontaneidade que se esperava dela. Só não esperava ser traída com uma sequência violenta cujos detalhes ela desconhecia: a tristemente famosa cena da manteiga, que simula um estupro.

Pelo que se soube depois, Brando e Berloucci haviam combinado a cena sem que Maria soubesse o que iria acontecer. Tratava-se de um estupro que, mesmo encenado, assustou a atriz - sua expressão chocada e humilhada que se vê na tela não foi, na realidade, representação. Foi uma reação aturdida e real.

Não há como não sentir um tremendo incômodo e mesmo repulsa diante dessa sequência, que a diretora do filme opta por mostrar, compartilhando com os espectadores as emoções que Maria sentiu - e depois não só não teve ouvidas suas queixas como foi forçada a continuar a filmagem.

Por conta de O Último Tango em Paris, ela passou a ser convidada para filmes que mostravam sexo e nudez, além de sofrer assédio nas ruas. A maior carga sobre a suposta pornografia que o polêmico filme carregava acabou caindo sobre os ombros frágeis de quem era menos responsável por seu resultado final, justamente Maria. 

Pretendendo explicar as fragilidades de sua protagonista, o filme não se limita a este episódio, apresentando também fragmentos de sua problemática vida familiar - filha de mãe solteira (Marie Gillain) e pai ator (Yvan Attal) que nunca participou realmente de sua vida. Ela não teve a carreira com que sonhava, fazendo poucos filmes de que realmente gostasse - uma exceção foi Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni, em que contracenava com Jack Nicholson. Por tudo o que sofreu, ainda tão jovem, acabou envolvendo-se com drogas e relacionamentos instáveis. Uma exceção foi Noor (Céleste Brunnquell), uma jovem estudante que escrevia um trabalho sobre mulheres no cinema.

De todo modo, felizmente o filme não se esgota na vitimização de Maria, mostrando que ela, afinal, sobreviveu, ainda que carregando tantas cicatrizes. Anamaria Vartolomei consegue transmitir o quanto ela manteve uma espécie de dignidade até o fim de sua vida, precocemente, aos 59 anos. Pena que demorou tanto tempo para que fosse levado a sério o seu lado nesta sombria história, que ela revelou em entrevistas em 2007 e que Bertolucci admitiu só parcialmente e um pouco tarde demais. 

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