Câncer com ascendente em Virgem, de Rosane Svartman, pega leve num assunto pesado. Mas isso não quer dizer que banalize sua abordagem, que parte, aliás, de uma história real vivida pela produtora Clélia Bessa. Parceira profissional da diretora há 30 anos, Clélia viveu na pele um câncer de mama em 2008, cujo enfrentamento registrou, bem-humoradamente, num blog, do qual resultou um livro.
No roteiro do filme, assinado por Suzana Pires, Martha Mendonça e Pedro Renato, a história ganhou inúmeras transformações e novas camadas, elegendo como protagonista Clara (Suzana Pires), uma professora de matemática e influencer educacional. Divorciada e mãe de uma filha adolescente, Alice (Nathália Costa), ela tem uma vida resolvida e enriquecedora. Até que chega o diagnóstico do câncer de mama para desorganizar todas as suas certezas.
O filme é eficiente em criar essas camadas em torno do efeito devastador do diagnóstico, começando pelo círculo familiar de Clara, integrado também por sua mãe, Leda (Marieta Severo), uma senhora bastante positiva e cheia de crenças e misticismos para encarar tudo. Há uma amiga, Paula (Carla Cristina Cardoso), que desaba ao saber da novidade - e é aí que Clara descobre uma força incipiente se formando para enfrentar um tratamento repleto de efeitos desagradáveis.
Suzana Pires agarra com força sua protagonista, dando corpo às nuances do impacto na vida de uma situação como essa - que a realizadora e a produtora do filme recordaram, na coletiva de lançamento, que afeta cerca de 78.000 mulheres ao ano. Não falta, portanto, um aspecto didático na circulação desta história, uma vez que uma grande parte dos casos este tipo de câncer é curável quando detectado precocemente.
Um aspecto positivo é revestir cada situação de um elemento realista, imprescindível à seriedade necessária sobre o tema, sem deixar de incorporar uma nota sensível ou, quando cabe, bem-humorada. Isto acontece, por exemplo, na clínica onde Clara recebe sua quimioterapia, num cotidiano que ela compartilha com Dircinha (Fabiana Karla), uma conhecida de quem ela costumava comprar brincos e crochês numa barraca de praça.
É certamente uma temática de cunho feminino e o filme consegue montar uma atmosfera solidária em seus vários círculos, como nessa família formada por Clara, Leda e Alice, mas também não dispensa a solidariedade possível do ex-marido de Clara, Renato (Ângelo Paes Leme) e sua nova parceira, Ju (Julia Konrad).
Uma outra qualidade da direção é manter o tom dentro de uma margem ampla de sutileza que permite as emoções mas não lhes permite tornar-se piegas, muito pelo contrário. As interpretações jogam sempre dentro desse esquadro delicado, garantindo uma dignidade à história pela qual há que se ter respeito. Rosane Svartman mostra que é possível fazer um filme simples e popular sobre um tema espinhoso.
