Falar de Mário de Andrade é sempre maior do que a vida, porque ele sempre ultrapassa qualquer discurso ou definição, tantas e tão ricas são as facetas desse poeta, escritor e agitador cultural paulistano.
Quase sempre o chamamos pela primeira pessoa, Mário, o que dá uma idéia do quanto ele nos habita, do quanto nos sentimos próximos dessa figura maior da cultura brasileira e que fez do humor a sua máscara.
O cineasta Murilo Salles, portanto, sabe o que arrisca quando mergulha nestas águas e se aventura a imaginar o Mário viajante bissexto em sua expedição ao rio Amazonas de 1927, da qual germinou a obra póstuma O Turista Aprendiz, publicada apenas em 1976. Escolhendo para representá-lo o ator Rodrigo Mercadante, que já o interpretou no teatro e explora sua semelhança física com o personagem, o filme flutua nas sensações desta viagem, na qual embarcam várias espécies de desejos.
Assumindo não “ter sido feito para viajar”, mas vendo-se envolvido na expedição patrocinada pela benfeitora Olivia Guedes Penteado (Lorena da Silva), Mário exerce sua curiosidade diante das paisagens e pessoas, o que se traduziu nas anotações extremamente pessoais que acabaram desembocando no livro e também em diversas fotografias em que ele captura a luz brasileira, tão peculiar.
Esta procura do Brasil profundo é o que define desde sempre Mário de Andrade, que foi um dos intelectuais que melhor refletiu sobre as chances desperdiçadas pelo País de desenvolver a própria identidade, deixando para trás aquele “europeu arrumadinho que tinha dentro de si” para encarar uma África que integrava sua pele, sangue e sentimento.
É divertido observar este Mário ficcional entretido nas intrigas a bordo, envolvendo duas irrequietas adolescentes que o acompanhavam, Margarida Penteado, a Mag (Dora de Assis), sobrinha de Olivia, e Dulce, a Dolur (Dora Freind), filha da pintora Tarsila do Amaral.
Selecionado dentro de um programa de inovação à linguagem, o filme traduz sua intenção de embarcar nos pensamentos e sensações de seu protagonista, recorrendo a efeitos visuais e vídeo-cenários como forma de materializar as sensações e hesitações do futuro autor de Macunaíma (1928) - as raízes de cuja lenda o filme igualmente menciona. Se é bem-sucedido nestas intenções, cabe a cada espectador dizer, preenchendo com suas sensações a impressão que o filme pode causar. Mas Mário, como sempre, escapará matreiramente entre as brechas.
