Uma comédia em alta voltagem em torno de duas manas trabalhadoras de Los Angeles. Tudo isso e muito mais constitui Um Dia Daqueles, estreia do diretor Lawrence Lamont. Lamont vem da direção de vídeos musicais e essa vibe se infiltra no filme, estrelado pela dupla Keke Palmer e a cantora Sza, ela também estreando como atriz.
Tudo no filme, roteirizado por Sireeta Singleton, é pensado em alta velocidade, para não deixar ninguém respirar, nem o elenco, nem o público. As protagonistas são Dreux (Keke Palmer), uma esforçada garçonete que sonha com um emprego de gerente, e Alyssa (Sza), uma artista plástica talentosa e descolada mas um tanto irresponsável. Elas dividem um apartamento detonado na zona sul de Los Angeles e entram num grande aperto quando descobrem que o namorado de Alyssa, Keshawn (Joshua David Neal), não pagou o aluguel do mês, como prometeu. O rapaz resolveu “investir” o suado dinheirinho das duas numa tentativa de negócio com camisetas que flerta com o desastre a partir da impressão errada de suas letras.
Com a iminente ameaça de despejo, anunciada em alto e bom tom pelo proprietário durão, Uche (Rizi Timane), as duas entram numa espiral de confusões para tentar obter o dinheiro antes que o dia acabe - o que inclui passagens por uma agência de agiotagem e um banco de sangue (cenário da cena talvez mais dispensável de toda a história). As duas garotas dão boa liga, apesar de suas evidentes diferenças, e mantêm a roda do enredo girando nessa urgência de tempo - à qual se soma o fato de que Dreux tem que comparecer a uma entrevista que pode decidir seu futuro profissional.
A história prioriza as personagens femininas de todos os calibres, incluindo as malvadas, como a cínica agiota (Keyla Monterosso Mejia) e, mais do que todas, a nova namorada de Keshawn, Bernice (Aziza Scott), barraqueira que não leva desaforo para casa. Os homens, começando pelo vacilão Keshawn, ficam na retaguarda, como o misterioso Maniac (Patrick Cage), com uma vaga para o gângster do pedaço, King Lolo (Amin Joseph).
Evidentemente, a maioria do público brasileiro não decifra muitas das referências peculiares desse ambiente urbano norte-americano, mas isso não é obstáculo para que se possa aproveitar inclusive algumas críticas sociais certeiras inseridas no contexto da comédia. Caso da situação das duas garotas decidindo fugir da ambulância, depois de um acidente com Dreux, apavoradas com o custo desse transporte, num país em que não existe um sistema público de saúde nem um SAMU. Apesar dos risos que a absurda situação provoca, dá para pensar que a classe trabalhadora no país de Trump anda driblando muitos apertos.
Apesar de não ser nenhum Depois de Horas, de Martin Scorsese, ou O Homem Nu, de Hugo Carvana, para lembrar dois bons filmes de um dia de desastres em série, o filme tem lá sua graça, amparado na energia indomável de suas duas protagonistas.
