Uma das coisas mais brasileiras de que se tem notícia, a feira livre tal qual a conhecemos, com seus cheiros que se misturam, seu caos de gritaria e “atropelamento” com carrinhos, aparece numa versão mais comportada no documentário Todo Dia é Dia de feira, de Silvia Fraiha.
O formato, que não foge ao de uma longa reportagem quase aos moldes de um Globo Repórter, engessa o filme, em sua sucessão de entrevistas e histórias pessoais que mesmo relevantes, com aquilo que se chama no jornalismo de “interesse humano”, não escapam da obviedade. São figuras com suas dificuldades e paixão por trabalhar na feira todos os dias, enfrentando os desafios como o de acordar bastante cedo.
Nessa feira bem organizada e sem gritos do tipo “moça bonita não paga, mas, também, não leva”, Fraiha encontra feirantes que trabalham há anos nisso e reclamam que as demandas são as mesmas – em especial, a falta de banheiros. Um dos momentos mais impressionantes do filme é quando a documentarista leva o então secretário de Urbanismo do Rio, Washington Fajardo, à feira para conversar com trabalhadores e trabalhadoras.
Ele começa muito interessado nas demandas, mas não custa muito em virar a narrativa. Banheiro químico, por exemplo, segundo ele, que não é feirante, não faz falta. Ele chega ao absurdo de dizer que a diretora que criou uma demanda que os trabalhadores não tinham. E quando um deles insiste, Fajardo explica que banheiro químico sairia caro e não teria quem cuidasse e fizesse sua manutenção, e sugere que um feirante abandonasse sua barraca para ficar cuidando do banheiro. Ao final, ele conclui que o que falta à feira é um produtor cultural – pasmem!
Esse é o momento de maior impacto do documentário, que poderia ser mais observacional, menos concentrado em entrevistas, trabalhando mais as diversas possibilidades de imagens que uma feira tem a oferecer – e não usar um drone para fazer uma imagem perpendicular das barracas.
