Quatro décadas depois de ter dado vida à personagem Macabéa em A Hora da Estrela, de Suzana Amaral, a atriz Marcélia Cartaxo volta ao universo de Clarice Lispector no sensorial Lispectorante, da cineasta pernambucana Renata Pinheiro (Carro Rei). O longa, cujo roteiro é assinado pela diretora e Sergio Oliveira, não é nenhuma adaptação da obra da escritora, mas uma espécie de viagem surreal por temas e motivos que aparecem nos livros dela.
Pinheiro, premiada diretora de arte de filmes como Zama, O Baixio das Bestas e Feliz Natal, sempre tem um esmero especial pela criação da imagem. A construção estética de seus filmes (como o longa Plástico, Amor e Barulho e o curta Praça Walt Disney) são marcantes pela escolha de cores e texturas que conferem à obra um visual impressionante.
Em Lispectorante, não é diferente. A fotografia, assinada por Wilssa Esser, cria uma atmosfera em tons pálidos e esverdeados que compõem um quadro de beleza admirável. Assim como a presença de Cartaxo em cena, uma atriz nunca menos do que brilhante. Mas o filme, narrativamente, tropeça em seus caminhos. Seu experimentalismo nem sempre encontra a resposta emocional que as personagens perseguem.
Cartaxo interpreta Glória Hartman, uma artista plástica vivendo uma crise existencial que retorna a Recife, onde, apesar de ser sua cidade natal, se sente uma estranha. Andando pelas ruas, encontra abandonada a casa onde viveu Clarice Lispector, e aí começa uma jornada misteriosa na vida da protagonista.
Pinheiro busca nas cores e lugares do filme uma espécie de sinestesia que tenta abarca a experiência sensorial de Glória. Do título que faz um trocadilho com o sobrenome da escritora – numa palavra que, não passa batido, parece nome de remédio – à relação quase doentia da protagonista com um andarilho (Pedro Wagner), tudo busca um estranhamento clariceano para chamar de seu.
A protagonista, que compartilha as iniciais com GH, aquela do livro e do filme “da barata”, é uma figura misteriosa que busca se encontrar numa jornada de fantasia. Nesse sentido, o filme caminha a cada cena mais distante do realismo, como se o onírico fosse a resposta para a crise de Glória.
