03/07/2026
Drama

Sobreviventes

No século XIX, depois de um naufrágio, os seis sobreviventes precisam aprender a conviver. Mas isso implica abandonar suas posições sociais e de poder, numa época em que ainda existia a escravidão.

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Em seu último filme, Sobreviventes, o cineasta português José Barahona, morto em novembro de 2024, transforma numa espécie de laboratório sociocultural uma pequena ilha deserta, que, embora não identificada, parece ser na costa brasileira, após o naufrágio de um navio negreiro no século XIX. 

Apenas seis pessoas sobreviveram e se encontram numa praia. Novamente, funcionam mais como elementos para investigações de dinâmicas sociais do que, realmente, como pessoas. São os portugueses Fradique Mendes (Miguel Damião), o padre Angelim (Paulo Azevedo), a nobre D. Emilia (Anabela Moreira), sua filha, Inês (Kim Ostrowskij), o marinheiro brasileiro Gregório (Roberto Bomtempo) e João Salvador (Alex Miranda), um homem escravizado.

Claramente, os portugueses acreditam que será possível manter a mesma organização  social em que viviam antes de partir, com o homem negro servindo a todos. Porém, imediatamente as coisas mudam de figura – especialmente quando Inês revela estar grávida de João. Na representação dessas figuras, o brasileiro é o selvagem que quer resolver tudo com violência, a portuguesa parece viver em outra realidade, e o padre é marcado pela hipocrisia. A voz conciliadora é Fradique Mendes.

A luta pela sobrevivência, no entanto, reorganiza os papeis sociais. Quando João encontra água, ele se torna o soberano, sendo que sua principal missão é proteger Inês grávida. O roteiro, assinado pelo diretor e o escritor angolano José Eduardo Agualusa, tem boas ideias, mas exagera no didatismo. Tudo precisa ser verbalizado nos diálogos, especialmente a perspectiva decolonial do filme. 

A história melhora quando o grupo encontra uma comunidade de pessoas que foram escravizadas num outro canto da ilha. O grupo é liderado por Vissolela (Zia Soares), uma mulher muito consciente de sua história e disposta a vingar-se dos brancos que os escravizaram.

O filme se rearranja, mas não abandona seus vícios narrativos, e se mantém exagerado em suas explicações e argumentações.  Seria preciso deixar que as belas imagens em preto e branco – em fotografia de Hugo Azevedo – falassem por si, sem a necessidade dos diálogos serem tão expositivos. O filme ainda conta com trilha sonora assinada pelos brasileiros Milton Nascimento, que também traz sua voz a algumas músicas, e Philippe Seabra.

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