Estreante em longas, a jovem cineasta Haley Elizabeth Anderson mostra um domínio impressionante da linguagem cinematográfica em seu Tendabarry, cujo título faz uma referência ao álbum da cantora estadunidense Laura Nyro de 1969, New York Tendaberry. Filmado, majoritariamente, em digital, o filme conta também com imagens analógicas e um Super 8 granulado, que ajudam a criar uma atmosfera de sonho e nostalgia.
Dividida por capítulos que levam os nomes das quatro estações, a narrativa é uma colagem de fragmentos unidos num fluxo pessoal de memórias e sensações. A protagonista é Dakota (Kota Johan), uma mulher de 20 anos de ascendência latina e africana que vive no Brooklyn com seu namorado ucraniano, Yuri (Yuri Pleskun). Porém, quando o pai dele tem um infarto, ele precisa voltar para seu país e, nesse mesmo momento, acontece a invasão russa.
A solidão de Dakota permite que ela perceba transformações ao seu redor que, ordinariamente, ignoraria. Assim, Anderson investiga também a percepção pessoal de lugares em tempos distintos, atrelada ao momento da vida de cada pessoa. Coney Island aparece primeiro nas imagens em Super 8 de Nelson Sullivan, um videografista dos anos de 1980. A protagonista relembra, num off, também o parque no começo do século XX, antes de um incêndio em 1910.
Anderson já se inscreve, com sua estreia, numa tradição do realismo social poético, como uma Andrea Arnold, digamos, mas, claro, é dona de um estilo e voz próprios. A protagonista vive situações comuns, algumas banais até, mas o filme a acompanha o tempo todo e constrói um painel de sua existência ao longo desse ano. Seu dia-a-dia é também marcado pelas lembranças da vida na República Dominicana.
Que a diretora consiga organizar esse trânsito entre memória, presente e significação histórica já é louvável, mas que ela o faça com brio e tanta graciosidade já coloca o filme num outro patamar, tornando-a uma cineasta a se prestar atenção.
