O cenário de Sempre Garotas, tal qual Narciso Negro, é num local isolado do Himalaia. Mas se, no filme de Michael Powell e Emeric Pressburger, é um convento, no drama da indiana Shuchi Talati é um internato para meninas. Talvez a diferença seja apenas que num deles as mulheres já são freiras adultas, e no outro, ainda jovens adolescentes. Em ambos os casos, descobrindo suas própria sexualidade.
Mira (Preeti Panigrahi) tem 16 anos, e está começando o que chamam de 12ª série, e é uma excelente aluna. Por isso, foi selecionada como líder de classe, uma honraria, que vem com algumas obrigações, como policiar o comportamento dos colegas de classe. A escola é mista, e marcada pela opressão num ambiente conservador, o que se chocará com o despertar da garota com a chegada de um novo aluno, Srinivas, mais conhecido como “Sri” (Kesav Binoy Kiron).
Há uma química entre eles, mas tudo conspira contra, afinal, aquele ambiente é de repressão, não de despertar. Talati e a diretora de fotografia Jih-E Peng transformam num código de imagens a paixão que toma Mira. A câmera, mais estática até então, torna-se mais livre e fluida.
Mira tem a oportunidade de visitar sua mãe, que mora perto, Anila (Kani Kusruti), e que também foi aluna do internato e viveu as mesmas situações de silenciamento que sua filha. Até por isso, ela é capaz de perceber que há algo de diferente na jovem. Embora até incentive o romance, ela estabelece limites e vê na libertação da filha uma espécie de compensação de seu próprio sufocamento no passado.
Sempre Garotas é delicado e sincero no retrato da descoberta da sexualidade por parte de sua protagonista. Um tema e uma abordagem rara no cinema indiano. Diretoras como Mira Nair (talvez o nome da protagonista seja uma homenagem a ela) foram capazes de abrir caminho com seus filmes, que tocavam em temas explosivos.
Talati, que também assina o roteiro, constrói a narrativa com muitos silêncios, e o não-dito tem um peso ainda maior do que as palavras verbalizadas. As trocas de olhares entre Mira e Sri são reveladoras de suas vidas interiores, de seus desejos que, embora num lugar isolado, são comuns a qualquer jovem descobrindo a si mesmo e ao mundo.
