O título Inventário de Imagens Perdidas já é intrigante por si só. O filme de Gustavo Galvão caminha nessa rota do estranhamento já dado logo de cara, numa história que se passa num Brasil apocalíptico tomado por uma teocracia e uma guerra civil.
A construção da narrativa se dá em duas partes bastante distintas esteticamente. Em uma delas, tudo é em preto e branco, exceto o céu, num tom de laranja. A fotografia do premiado Bruno Polidoro tem uma construção forte que dá muito do sentido ao filme. Já segunda parte é um tanto escura, apesar de em cores, e claustrofóbica. Dessa forma, esse é um filme de sensações, mais de impressões do que de trama.
Roberto (Roberto Oliveira) foi um cineasta, sua casa, o museu de seu trabalho, suas imagens. Esse lugar, isolado no campo, servirá de abrigo para duas mulheres, Maria (Maria Galant) e Larissa (Larissa Mauro), que fogem da revolução fundamentalista. É nessa dialética entre o passado e o presente que o filme constrói seus questionamentos sobre o poder da arte diante de uma sociedade corrompida.
Gestado entre 2020 e 2021, o filme elabora de maneira alegórica o Brasil daquele momento, cujas consequências reverberam até hoje, no fundamentalismo religioso e no fortalecimento da extrema-direita no país desde então. A possibilidade de construir imagens, conforme diz o longa, ganham um outro sentido e se tornam a resistência.
Sem muitos diálogos, confiando mais no poder da sugestão e interpretação subjetiva, Galvão e sua equipe fazem um filme de imagens estranhas num mundo marcado pela superexposição imagética. Seu contato com o presente e seu tom podem transformá-lo mais num filme de terror sobre um futuro próximo do que uma representação do passado.
