Num tempo em que se fala tanto de polarização, Virginia e Adelaide é um filme sobre a construção de pontes. No caso, entre as experiências diferentes de duas mulheres que acabaram tornando-se pioneiras da psicanálise no Brasil: uma delas, a judia alemã Adelaide Koch (Sophie Charlotte), a outra, a socióloga paulista Virginia Bicudo (Gabriela Correa), uma mulher negra.
Dirigido a quatro mãos por Yasmin Thainá e Jorge Furtado, o filme incorpora essas origens tão distintas dessas mulheres para fazer fluir o que foi um encontro iluminado e promissor, ainda não devidamente conhecido, apesar de terem se passado 88 anos. O que, por si só, reflete o apagamento imposto às realizações de mulheres, mais ainda às das mulheres negras.
Atuante na área da saúde, Virginia estudava na Escola de Sociologia e Política quando, em 1937, procurou Adelaide, em busca de que ela a aceitasse como paciente de psicanálise. Adelaide estava há cerca de um ano em São Paulo, onde se refugiou do nazismo com seu marido e filhas - uma delas, Lore Koch, futura pintora, protagonista do recente documentário, As Cores e Amores de Lore, de Jorge Bodanzky.
O filme se apóia muito na troca de palavras entre as duas mulheres, em que ressalta a inquietação de Virginia com o racismo de que fora vítima desde criança, filha de mãe branca italiana e pai negro, nascido livre, com o fim da escravidão ainda muito recente. Este grande incômodo com o bullying que sofreu na escola, como única aluna negra, e posteriormente, na vida profissional, torna-se o principal objeto desta análise - e em que Adelaide pode contribuir na compreensão, como vítima de antissemitismo e perseguição em seu país de origem.
Mesmo que não se trate do mesmo tipo de opressão, há pontos em comum, que levam a que as duas mulheres possam trocar muito mais do que sessões de análise. Além da ciência, o afeto entra em cena entre duas mulheres que vivenciam a discriminação e o apagamento em tempo real. Virginia, ainda mais, encontrando oposição a que se afirme como psicanalista nos meios brasileiros, o que a leva a radicar-se alguns anos na Inglaterra.
O filme se vale das cartas trocadas entre as duas nesse período, e que denotam a qualidade intelectual e afetiva deste relacionamento entre duas mulheres extraordinárias. Mas não se furta, igualmente, a oferecer contexto histórico para estas vidas, com imagens de arquivo poderosas sobre o nazismo e também sobre o autoritarismo do período do Estado Novo.
Neste equilíbrio entre a atmosfera intensamente pessoal das sessões entre as duas e as imagens de arquivo o filme encontra seu tom e cumpre um de seus objetivos: tornar mais conhecidas duas mulheres extraordinárias, que abriram caminhos para o aqui e o agora, cujos nomes precisamos aprender de cor e cujo trabalho é preciso urgentemente resgatar.
