Em rumo a uma terra desconhecida, primeiro longa do cineasta palestino-dinamarquês Mahdi Fleifel, começa uma praça em Atenas. Um lugar comum, sem qualquer exotismo que atraia turistas, embora existam alguns por ali, além de moradores locais. Entre essas pessoas, estão Chatila (Mahmood Bakri) e Reda (Aram Sabbah), que observam a todos, até escolher quem parece ser a vítima perfeita.
O filme abre com uma citação do professor e pensador palestino-estadunidense Edward Said: “De certa forma, é uma espécie de destino dos palestinos não acabar onde começaram, mas em algum lugar inesperado e distante.” Essa é a ideia que irá percorrer todo o longa, no qual os personagens, presos a uma espécie de não-lugar, buscam uma maneira de se reencontrar.
Chatila sonha em conseguir dinheiro o suficiente para ir embora para a Alemanha, levando a mulher o filho que ficaram no Líbano. Seu cotidiano é basicamente conseguir dinheiro para comer e recarregar seu celular. Ele também é manipulador, a ponto de usar o primo Reda como um trabalhador sexual nas ruas de Atenas para conseguir dinheiro.
Nada disso, no entanto, o transforma num vilão para o filme. Chatila é vítima das circunstâncias, e, se usa métodos escusos para sobreviver, é porque não tinha outra opção. Embora o filme não compactue com suas ilegalidades, ainda assim, não o julga, o que transforma o personagem numa figura complexa, que é muito bem aproveitada na atuação repleta de nuances de Bakri.
De forma predatória, Chatila flerta com uma jovem grega, Tatiana (Angeliki Papoulia), e faz amizade com um garoto de 13 anos, Malik (Mohammad Alsurafa), com quem o protagonista parece realmente se preocupar. Mas tudo é parte de um plano para conseguir mais dinheiro da tia do menino, que vive na Itália.
O filme tem um grande carinho por esses personagens à margem da sociedade, e uma enorme capacidade de tentar compreendê-los. O roteiro, assinado por Fyzal Boulifa, Fleifel e Jason McColgan, olha-os de forma curiosa, tentando situá-los no mundo do presente, cindido, confuso e perigoso – especialmente para esses personagens. A grande força é fazer o público se questionar até que ponto compactua e simpatiza com os personagens.
Trazendo com um olhar terno para um momento histórico de esfacelamento, Em rumo a uma terra desconhecida vale-se de elementos do neorrealismo italiano, atualizando-o para o presente. Chatila é a materialização do destino da citação de Said do começo do longa, uma figura sem um lugar para chamar de seu, vindo de uma pátria sempre aviltada, em busca de um lugar desconhecido onde possa chamar de lar.
