Italiano radicado nos EUA há mais de duas décadas, o diretor e produtor Roberto Minervini, em Os Malditos leva para a ficção seu olhar documental compassado para contar a história de uma companhia de soldados voluntários durante a Guerra Civil dos EUA. O ano é 1862, e esse grupo de militares é mandando para patrulhar as fronteiras inexploradas o país.
Ganhador do prêmio de direção, na mostra Um Certo Olhar, em Cannes 2024, Minervini, que também assina o roteiro, olha aqui as mazelas sociais dos EUA e, mesmo situando a narrativa no passado, está interessado nos problemas do presente. Se fosse possível fazer um documentário na época da Guerra Civil estadunidense, o resultado poderia muito bem ser um filme como esse.
Com a bela fotografia de Carlos Alfonso Corral, que também assina a trilha sonora, Os Malditos se passa num tempo próprio, num cinema cadenciado pelo observacional com a dita ação sendo construída de forma branda despindo-se da urgência do presente para mergulhar numa temporalidade dilatada, como a vida desses personagens sem muitas expectativas para o futuro, mergulhados num presente melancólico.
O passado violento dos EUA é visto pela combinação de realismo histórico num estilo naturalista, mas com uma dose de alucinatório. Durante muito tempo, como em O Deserto dos Tártaros, do também italiano Valerio Zurlini, espera-se que algo aconteça. E quando finalmente acontece, era melhor que não tivesse acontecido, pois os soldados caem numa armadilha e nunca fica claro quem são esses inimigos.
Quatro soldados se destacam na narrativa, que se separam do grupo principal e são, aos poucos, tomados pelos horrores da guerra sem entender ao certo o que está acontecendo. São eles os malditos do título, que enfrentam tensões e criarão laços que moldam a identidade estadunidense. Ao olhar para os horrores do passado, Minervini acerta o presente cindido dos EUA em uma sociedade que parece estar à beira de uma nova guerra civil real.
