A mulher que nunca existiu faz uma pergunta que deve atormentar muita gente: o que fazer quando a vida lhe dá uma segunda oportunidade de recomeçar como outra pessoa? O longa escrito e dirigido pelo tunisiano Mehdi Barsaoui coloca sua protagonista nessa situação. A personagem, que começa o longa chamando-se Aya (Fatma Sfarr), trabalha num hotel na cidade Tozeur, no Saara tunisiano, levando uma vida difícil. Um dia, um acidente lhe dá a oportunidade de assumir outra identidade.
Aya trabalha num emprego miserável e explorador, no qual é humilhada por hóspedes do hotel, e, em casa, as coisas não são muito diferentes. Seus pais tentam vendê-la, como se fosse uma mercadoria para um casamento, e a ridicularizam por comprar uma jaqueta barata. Um dia, a van que a leva ao trabalho bate, e antes que exploda, a protagonista consegue fugir, mas é dada como morta.
Usando uma burca para esconder seu rosto, ela vai ao próprio funeral, e depois toma um ônibus pensando em nunca mais voltar àquela cidade. Com um certo arranjo, consegue dinheiro para viver uma vida melhor em Túnis.
É esse processo de libertação e reconstrução de identidade que o filme de Barsaoui acompanha tão bem, apoiado na interpretação forte e nuançada da ótima estreante Sfarr. Adotando o nome de Amira, ela ainda sofre abusos e violência em Túnis, mostrando a corrupção e os perigos de ser uma mulher naquele país.
Há altos e baixos no filme, como uma subtrama policial que não parece estar em sua completude ali, mas a força do longa está na construção de uma personagem que passa por grandes provações para poder, finalmente, encontrar em si mesma.
