Em Levados pelas Marés, o talentoso diretor chinês revisita a toda a sua obra e as preocupações nela reveladas, repassando 20 anos de história da China, mesclando sequências documentais e atuações de sua mulher e atriz-fetiche, Zhao Tao, e um pequeno elenco. É um filme lacônico, no sentido de que tem poucos diálogos, e aposta mais em sequências imagéticas que alternam as texturas que traduzem cada época. À medida que o tempo passa, vão sendo incorporados mais e mais aspectos high tech - uma cena impagável envolve uma interação entre Zhao Tao e um robô falante num supermercado.
O filme começa com imagens colhidas em 2001 para retratar uma China em busca da modernização, em que as pessoas procuram novas formas de sobrevivência e a natureza é dominada para corresponder a esse grande esforço de progresso - como com a construção da imensa hidrelétrica das 3 Gargantas, referida por Jia em Em Busca da Vida (2007) e cujos deslocamentos, traumas e cicatrizes são retomados aqui.
Zhao Tao é, mais uma vez, Qiao, personagem recorrente em alguns filmes do marido, que percorre o país em busca de Guo Bin (Li Zhubin), um homem que desapareceu de sua vida e com quem ela quer acertar algumas contas.
Mas esse fio narrativo é bastante tênue, já que a aposta é mesmo na contemplação das imagens que o filme seleciona e organiza, de uma forma que poderá não agradar a muitos. E a sequência final, mostrando várias pessoas correndo sob a neve numa avenida, inclusive Zhao Tao, é de uma beleza incrível.
