03/07/2026
Drama

Segredos

Professor de literatura do ensino médio, Pietro Vella é querido dos alunos e interessado em seu futuro. Envolvido, anos depois de lecionar para ela, com uma de suas ex-alunas, Teresa, ele vê este romance rompido por ela, depois que ela insiste em que ele revele um segredo. Os anos passam, e ele continua temeroso de que ela destrua sua vida com a revelação do que ele lhe contou.

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Há algo de estranho no atual cinema italiano. Um certo mal-estar, um desconforto com os sentimentos e o mundo. Talvez esta sensação seja mais clara quando se pensa neste Segredos, drama em que o veterano diretor Daniele Luchetti adapta o romance de Domenico Starnone de 2019. 

Trata-se de um inquietante relato de amor tóxico, que acompanha uma relação retomada e interrompida, ao longo dos anos, entre o professor de literatura Pietro Vella (Elio Germano) e uma ex-aluna, Teresa Quadraro (Federica Rosellini), que se tornou uma respeitada matemática numa universidade norte-americana. Pietro é um professor de ensino médio, respeitado e mesmo querido por seus alunos por uma estratégia pedagógica que ele chama de “pedagogia do afeto”. Ele acompanha o progresso de cada um deles e se empenha a fundo para que tenham sucesso a partir dessa fase de formação.

Evidentemente, isso não garante que ele possa prever todos os sentimentos que seu próprio comportamento pode despertar em alguns desses alunos. É o caso de Teresa, uma aluna brilhante mas que desenvolve uma paixão secreta pelo professor, que ele ou não percebe ou finge ignorar. Frustração e ressentimento podem alimentar reações imprevistas e, no caso de Teresa, elas parecem a princípio voltar-se contra ela mesma, que não segue o caminho fulgurante que o professor previa para ela.

Os dois se reencontram tempos depois do fim do ensino médio, quando ela largou os estudos e trabalha como garçonete num pequeno restaurante. A descoberta choca o professor, que se reaproxima dela e procura estimulá-la a retomar os estudos. A reaproximação tem outro efeito também, dando oportunidade a que os dois iniciem um relacionamento tão apaixonado quanto doentio.

O nome do filme remete a um dos episódios estranhos dessa vida a dois. Um dia, Teresa sugere que ele lhe confie um segredo que nunca havia compartilhado com ninguém, e que ela fará o mesmo. A troca dessa confidência, que deveria sedimentar a confiança entre os dois, tem um efeito reverso, alimentando uma ruptura e um medo, especialmente por parte dele, de que Teresa algum dia exponha esse episódio obscuro da vida dele.

O filme de Luchetti se equilibra no sentimento dúbio dessas duas pessoas, que vivem separadas, têm outros relacionamentos, mas permanecem de algum modo presas por esse segredo - e que o filme, matreiramente, não revela. A opção do diretor é manter o espectador atiçado por essa incerteza, assim como Pietro, sempre no fio da navalha, à espera de ser desmascarado e ter, quem sabe, sua vida virada do avesso, destruindo o casamento com a professora Nadia (Vittoria Puccini), com quem teve uma filha, e um relativo sucesso profissional.

É um mundo cínico e de sentimentos obscuros este que Luchetti constrói neste filme, em que opta por criar pequenas armadilhas para o espectador - como quando retrata os pensamentos e sonhos do protagonista - do que em sustentar uma dramaturgia mais consistente. A discreta sedução deste amor doente, especialmente por parte de Teresa, mostra-se, afinal, insuficiente e insatisfatória pelas opções tomadas pela direção. Falta uma profundidade maior especialmente às personagens femininas, o que pode ser dito também em relação a Nadia. Com todos os seus defeitos e limitações, o único personagem a ter suas razões e sentimentos mais claramente especificados é mesmo Pietro, que revela um lado humano, ainda que falível. E já que não saberemos seu segredo, podemos talvez com mais facilidade cogitar perdoá-lo. 

Fica mais difícil interpretar as motivações de Teresa, fora de um rancor inesgotado, ou mesmo o conformismo de Nadia - sobre quem sabemos menos do que seria apropriado. Indefinidas, estas mulheres tão cruciais, assim como a secundária Tilde (Isabella Ferrari), permanecerão mais como tipos do que personagens de carne e osso, que, caso mais bem delineadas,  poderiam contribuir para dar mais materialidade à trama, superando os chavões e maniqueísmos com que resultam retratadas.

 

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