18/07/2026
Suspense

Ponto oculto

Uma equipe de documentaristas alemães viaja à Turquia para fazer um filme sobre Baran, um militante curdo desaparecido há 20 anos. Eles são secretamente vigiados por agentes de segurança do governo, que não desejam ver revelados segredos de uma guerra suja permanente. Enquanto isso, Melek, a pequena filha de um dos agentes, começa a revelar estranhas confidências de um amigo imaginário.

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Dividido em três capítulos, o filme da diretora germano-curdo-turca Ayse Polat remete, desde o título, a um jogo de imagens sobrepostas e não raro conflitantes. Ponto Oculto, em português, talvez fosse melhor traduzido como “ponto cego”, ou seja, aquele lugar que as câmeras não conseguem captar. É nesse interstício de um mundo em que muito se filma sem necessariamente colher todos os ângulos da realidade que se move a história - roteirizada também pela diretora, e que incorpora um toque policial e outro sobrenatural para criar uma metáfora sobre uma situação política recorrente.

No primeiro segmento, acompanha-se uma equipe de documentaristas alemães no nordeste da Turquia, em busca de resgatar a história de Baran, um jovem curdo desaparecido, tendo como guia seu advogado, Eyup (Aziz Çapkurt), e entrevistando a mãe do jovem, Hatice (Tudan Ürper) - que realiza periodicamente um ritual em que deposita suas esperanças de promover a volta do filho. Ou simplesmente manter acesa a chama de sua lembrança, elaborando um luto que já dura 20 anos.

O subtexto político da trama entra aos poucos através da exposição da vigilância constante sobre a equipe alemã e o advogado por um SUV preto, ocupado por dois agentes governamentais, Zafer (Ahmet Varli) e Hasan (Muttalip Müjdeci). As câmeras de seus celulares serão, agora, aquelas que capturam imagens destas pessoas, tidas como suspeitas num Estado que considera terroristas os movimentos emancipacionistas curdos e não raro comete crimes contra os direitos humanos desta população. Baran foi apenas um dos muitos desaparecidos nesta guerra. 

A maneira como a diretora elabora esta problemática, no entanto, aposta num envolvimento pessoal, emocional até, do espectador, impregnando o agente Zafer de uma paranoia que define os modos de ação desta polícia secreta, à qual pertenceu também seu pai. Zafer foi criado neste ambiente desde muito jovem, assimilando uma visão autoritária de mundo em que a dissidência equivale necessariamente a crime. Suas certezas, no entanto, entram em colapso quando sua filha, Melek (Çagla Yurga), uma garotinha de 6 anos, começa a insistir que ouve uma misteriosa figura invisível, mas que lhe sopra continuamente segredos incômodos sobre essa guerra suja, sempre prestes a vir à tona.

Duas mulheres participam da trama, a esposa de Zafer, Sibel (Nihan Okutucu), e a vizinha, Leyla (Aybi Era), tradutora do grupo alemão e professora de inglês da garotinha. Interferindo nas bordas da história, elas entram nas engrenagens de um mundo masculino brutal, no qual são jogadas como peões, sem ter conhecimento total dos acontecimentos. 

O tom policial, que envolve a vigilância dos dois agentes e sua desconfiança mútua, inclusive, sustenta uma história que aspira claramente a um nível metafórico, afastando-se de um registro realista. O toque sobrenatural comparece também para enfatizar o lado fantasmagórico das memórias dessa guerra suja tantas vezes perpetrada e tantas vezes escondida, mas reaparecendo sempre, em vestígios indeléveis na nova geração - representada pela perplexa Melek, que não compreende as revelações de seu suposto amigo imaginário, mas deseja saber seu nome devido à ilusão de assim poder de fazê-lo desaparecer. 

O filme teve sua première na seção Encontros do Festival de Berlim 2023 e foi premiado no German Film Awards e no Festival Internacional de Ancara. 

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