A ideia de casamento por amor, bem como a noção de indivíduo, é relativamente recente na história da humanidade. Tudo isso foi inventado pela burguesia, no século XVIII. Basta ver Orgulho E Preconceito, de Jane Austen, um romance ensinando as jovens a se casar, mostrando diversos tipos de casamento – sendo o ideal o de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, pois combina amor e dinheiro.
Amores Materialistas, escrito e dirigido por Celine Song, leva essa ideia a um novo patamar, investigando a comodificação dos sentimentos no capitalismo tardio. Não é novidade que somos mercadorias na sociedade movida pelo capital; vendemos, em especial, nossa força de trabalho, mas a cineasta mostra como tudo são elementos que adicionam ou tiram valor no mercado do romance.
Tal qual Emma, de (novamente) Jane Austen, a protagonista do filme Lucy (Dakota Johnson) é uma casamenteira mas, ao contrário da personagem clássica, ela não o faz por ter tempo sobrando e boas intenções. É o seu trabalho, numa agência especializada em juntar pessoas que estão uma atrás da outra. A combinação é feita a partir de interesses e características que agradem às duas partes, que terão um primeiro encontro e, se tudo der certo, seguirão em frente.
O filme começa com Lucy comemorando o nono casamento que ela consegue fazer. É, literalmente, uma festa na agência Adore, além de um recorde para uma das profissionais. Lucy é a melhor no que faz e, talvez por estar o tempo todo em contato com pessoas em busca da cara-metade e com ilusões amorosas, ela mesma desistiu do amor. Até que na festa desse casamento as coisas mudam.
Entra em cena Harry (Pedro Pascal), irmão do noivo, podre de rico, old money de Nova York, que se interessa por ela. Nessa mesma ocasião, ela reencontra John (Chris Evans), um antigo namorado, charmoso, pobretão e aspirante a ator de teatro, que trabalha como garçom na festa. Se a questão que o filme coloca é óbvia, escolher o amor ou o dinheiro, a maneira como Song lida com ela não tem nada de banal. A narrativa é marcada por caminhos inesperados, com toques cômicos, mas também mais melancólicos. Se alguém espera uma comédia romântica, é porque não viu Vidas Passadas, o festejado longa de estreia da cineasta.
Lucy começa a namorar Harry, que parece um sujeito legal – e é. Mas sua posição social lhe deu um privilégio do qual ele não tem percepção. Ele não está namorando a protagonista, ele a está comprando pouco a pouco, com presentes, com seu apartamento gigantesco, com o convite para a viagem dos sonhos dela, enfim, com o dinheiro infinito que ele tem.
Por outro lado, um pequeno flashback dá conta muito certeiramente de como era o relacionamento numa vida passada de Lucy e John. Parece claro que foram feitos um para o outro, e o fato de ele ele mal ter dinheiro, possivelmente, torna o namoro mais sincero do que com Harry.
Song é certeira na dinâmica de relacionamentos atravessados pelo capital na contemporaneidade. É um olhar novo e muito sincero em como os 1% tem um soft power sobre os 99%. A diretora navega a complexa paisagem da mercantilização dos sentimentos, de como estamos todos numa vitrine nos dias de hoje – não que isso seja novidade, mas nunca foi tão explícito quanto agora, ou seja, nunca fomos tão materialistas, e todo mundo vem com uma etiqueta de preço, independente de sermos caros ou baratos.
