A protagonista de A Prisioneira de Bordeaux, Alma, é mais uma burguesa, repleta de boas intenções, mas arrogante e sem noção, mais uma para uma galeria de burguesas arrogantes e sem noção que Isabelle Huppert construiu em sua carreira. Nesse drama sólido, dirigido por Patricia Mazuy, a personagem está no centro de um episódio inusitado.
Esposa de um médico que, bêbado matou uma pessoa e paralisou outra e se encontra preso, ela faz amizade com a jovem Mina (Hafsia Herzi), uma mulher com duas crianças pequenas que também visita o marido preso. Mas, por conta de uma informação incorreta da penitenciária, viajou até ali um dia antes da data correta.
Sensibilizada com a situação da moça, que veio de longe e perdeu a viagem, Alma decide hospedá-la em sua casa até o dia seguinte, quando Mina fará a visita ao marido. Surge uma forte amizade entre as duas, a ponto de a burguesa conseguir um emprego para a jovem na clínica do marido e convidá-la a morar com seus filhos na enorme mansão onde mora.
É uma amizade estranha, que Mazuy pinta com tons à la Claude Chabrol – um diretor, aliás, com quem Huppert trabalhou diversas vezes. É como se Alma fosse se apropriando da vida de Mina, seduzindo as crianças com presentes e festinhas, e até a jovem fica tocada com a possibilidade de uma vida confortável na casa da burguesa.
Mazuy, trabalhando com um roteiro assinado por ela e François Bégaudea e Pierre Courrège, pode ter feito aqui seu filme menos radical. Mesmo assim, trata-se de um comentário incisivo à tradição europeia liberal (no sentido político, cultural, social), que supostamente pretende ajudar os menos desfavorecidos, mas, aos poucos, começa a tomar conta de todos os campos da vida de Mina. É asfixiante a maneira como Alma insiste em estar em todos os lugares e fazer de tudo para agradar à amiga e aos filhos dela.
A história, no entanto, toma um desvio policial sem perder a noção da comédia e do ridículo de toda a situação. Talvez mais do que ridículo, tudo é tóxico. As duas mulheres estão tentando, discretamente, tirar vantagens uma da vida da outra, mas Alma tem mais opções para isso, afinal é rica e tem poder.
A Prisioneira de Bordeaux tem uma curiosidade genuína sobre a trajetória dessas duas mulheres, cujos mundos se encontram, se unem, colidem e se transformam em algo novo. A direção de Mazuy, como sempre, é muito precisa, e as duas atrizes estão irrepreensíveis, num mundo marcado por homens exploradores e folgados.
