Talvez o nome mais improvável para encabeçar o elenco da retomada da comédia Corra que a Polícia Vem Aí, trilogia de sucesso entre 1988 e 1994, fosse o ator irlandês Liam Neeson. Ator indicado ao Oscar em 1994 por A Lista de Schindler e ultimamente intérprete de uma série de filmes de ação, no entanto, é compreensível que Neeson, aos 73 anos, estivesse disposto a uma repaginada. Resolveu se divertir, interpretando Frank Drebin Jr., filho do impagável personagem vivido por Leslie Nielsen e, como ele, um policial bastante anárquico, embora dedicado.
O filme começa justamente com uma sequência em que seus dotes para encarar o perigo e provocar destruição são fartamente demonstrados. Entrando disfarçado num banco que está sendo assaltado - melhor não revelar aqui seu disfarce -, ele acaba não só com a festa dos ladrões como com a maioria dos próprios ladrões. Contenção e correção política nunca foram mesmo o forte da família.
Mas os tempos e as sensibilidades são outros e a intervenção demolidora de Drebin no banco acaba punida por sua pressionada chefe (CCH Pounder), que o transfere, junto com o parceiro Ed Rocken Jr. (filho do personagem interpretado por George Kennedy na franquia original), para o departamento de acidentes de trânsito. Mas isto levará Drebin e Rocken ao encontro não de um acidente qualquer e sim de um provável assassinato, apontando para a responsabilidade de um magnata de big tech, Richard Cane (Danny Huston).
Se há alguma seriedade na escolha deste duelo com as big techs e sua ânsia e controlar o tempo e as mentes do mundo, ela é fartamente compensada por diálogos cheios de trocadilhos, em boa parte maliciosos e muitas vezes francamente cafajestes - sutileza nunca foi o forte da franquia e não vai ser agora que vai mudar o tom.
A mulher fatal da história, outra veterana em rumo de reinvenção, é Pamela Anderson, interpretando Beth Davenport, a irmã do homem morto no acidente, ansiosa para esclarecer as circunstâncias do acidente. Entre ela e Drebin, recentemente viúvo, vai girar a energia sexual da história, dando origem a situações capciosas - como aquela espionada pelo capanga Sig Gustafsson (Kevin Durand), a partir de um binóculo especial que mostra bem mais do que os acontecimentos.
Na sua ânsia de não deixar a bola cair, o filme embarca numa sucessão de gags bem rápidas - insistindo à exaustão na piada do copo de café entregue aos policiais -, que a versão brasileira na dublagem procurou traduzir e tornar acessível ao público brasileiro. Como se poderia esperar, está longe de ser um humor sofisticado, apostando mesmo na grossura, humor de banheiro e sugestões sexuais de segunda. Pode funcionar? Claro que pode. Mas não tem nada para deixar de ser esquecível no minuto em que a plateia deixar o cinema. E também não se venha reclamar se não der certo, porque as sensibilidades, ao menos de uma parte do público, também podem ter mudado desde 1988, quando a franquia começou.
