03/07/2026
Drama

O Último Azul

Num futuro próximo, no Brasil, os idosos são segregados, enviados para uma colônia à parte, que significa uma espécie de morte civil. Revoltando-se contra isso, Tereza decide fugir antes de ser recolhida, tentando satisfazer um sonho antigo: voar. Nessa trajetória pelos rios amazônicos, ela conhece um barqueiro desesperado de amor e outros personagens que a levam em aventuras inusitadas. Na Netflix.

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A première brasileira de O Último Azul, de Gabriel Mascaro, em Gramado, proporcionou uma das melhores noites de abertura dos 53 anos do festival gaúcho. Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim 2025, o filme teve uma sessão de honra, que incluiu a troca do tradicional tapete vermelho diante do Palácio dos Festivais por um tapete azul - honraria nunca vista em Gramado.

Todo este acolhimento fez sentido para um filme que figurou entre os 16 títulos que disputaram a indicação para representar o Brasil no Oscar 2025, podendo com justiça ser considerado um dos melhores filmes do ano. No drama distópico, filmado na Amazônia, Denise Weinberg interpreta Tereza, uma mulher de 77 anos que, por uma política implantada autoritária imposta num futuro próximo, deve ser recolhida a uma colônia, destino de todos os idosos, para não atrapalharem a produção dos mais jovens.

Rebelando-se contra esse destino inexorável, Tereza parte em busca de realizar o sonho de voar. No caminho, encontra o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), um homem amargurado pela própria perda amorosa; Ludemir (Adanildo), um homem que mantinha um pequeno negócio de ultra-leves, agora uma atividade clandestina; e Roberta (a atriz cubana Miriam Socarrás), chamada de “a freira do rio”, uma aventureira estrangeira que dispõe de um status especial, apesar de idosa, percorrendo os rios amazônicos vendendo bíblias digitais.

Este é, de longe, o filme mais maduro de Gabriel Mascaro, a partir de um roteiro que ele assina com Tibério Azul, que foi sendo desenvolvido ao longo de 10 anos. O foco central está nessa corporalidade dos mais velhos, que quase sempre é colocada dentro de um registro de fragilidade, finitude ou nostalgia, nunca de uma expressão mais vívida de sonho ou humanidade. Não aqui.

Atriz com larga experiência teatral, Denise ocupa com mérito o espaço da protagonista, uma mulher simples, trabalhadora, que se lança à grande aventura de sua vida, movida por essa luta para escapar ao sufocamento. De quebra, a Amazônia entra não só como cenário, mas como personagem, incorporando também a idéia da imensidão que se expressa de tantas formas, nos seres que a habitam. Não se trata nunca de uma natureza idílica e sim de uma floresta, povoada de rios imensos, que impõe aos homens e mulheres que a habitam uma certa contemplação para poderem se relacionar com ela e expressar também seus humores e sentimentos.

Por todas essas camadas, trabalhadas na fotografia de Guillermo Garza e na montagem de Sebastián Sepúlveda e Omar Guzmán, O Último Azul estimula a imaginação e desafia sua classificação em gêneros - muitos se misturam, do drama à comédia, passando pelo romance e a aventura, não dispensando mesmo uma faceta de realismo mágico, que entra organicamente nesta narrativa fascinante e tentacular.

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